quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Rousseau e seu erro no que tange a escravidão em Aristóteles

Passando pela obra de Rousseau não é dificil polemizar no eferente ao que seria "natural" e "anti-natural", visto que isso nem sempre é muito claro. Mas esta nota crítica foi composta levando em consideração um trecho especifico do Capítulo II do Livro I de "Do Contrato Social", certamente uma de suas principais obras senão a mais influente. Segue o trecho:

"Aristóteles dissera que os homens não são naturalmente iguais, mas que uns nascem para a escravidão e outros para a dominação.

Aristóteles tinha razão, mas ele tomava o efeito pela causa. Todo homem nascido na escravidão nasce para a escravidão, nada mais certo. Os escravos perdem tudo em suas cadeias, até mesmo o desejo de sair delas: eles amam a servidão como os companheiros de Ulisses amavam o embrutecimento. Portanto, se há escravos por natureza, é porque houve escravos contra a natureza. A força fez os primeiros escravos, a covardia os perpetuou na escravidão."

Neste pequeno detalhe temos uma grande distorção do pensamento aristotélico. Como vemos na citação, segundo Rousseau o raciocinio de Aristóteles é que como uns nascem escravos e outros senhores, logo é perfeitamente natural que eles estejam em tal condição e dái conclui-se que os homens são naturalmente desiguais. Apresentado dessa forma, o pensamento de Aristóteles beira ao ridículo de falacioso e aparenta não passar de mera ingenuidade somada a senso comum - chega a ser uma ofensa a inteligência do pensador clássico. Acontece que Rousseau expõe um raciocinio completamente alheio a Aristóteles ignorando a divisão que este faz entre "servidão natural" e "servidão convencional". Vejamos um pouco do que Aristóteles de Estagira diz de fato:

"todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer. (....) Numa palavra, é naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que resolve depender de outrem. Tais são os que só têm instinto, vale dizer, que percebem muito bem a razão nos outros, mas que não fazem por si mesmos
uso dela."
(Aristóteles no trecho "A Servidão Natural" da obra "Política")

Este trecho é o suficiente para refutar a exposição do filósofo genebrino, já que nele Aristóteles expõe que "naturalmente escravo" é aquele que nasce com determinadas qualidades e não sob determinadas condições - é uma questão de essência e não de classe social. Refutando a exposição negamos que dela Aristóteles conclui que os "homens são naturalmente desiguais"(conclusão que aliás não deriva exclusivamente do raciocínio exposto).

Mas, ignorando a falsidade das premissas de Rousseau e considerando a afirmação de que "há escravos pela natureza"(que é colocada na condicional por isso esse parágrafo é questionável), encontramos alguns problemas em sua lógica. Rousseau parece não compreender que a condição social de escravo não é imposta pela natureza e sim pela sociedade logo quando o individuo nasce - considerar esta "natural" é inclusive legitimar as bases daquilo que ele combateu. "Todo homem nascido na escravidão nasce para a escravidão" é uma convenção social(vale alertar: não no sentido do trecho de Aristóteles e sim no de classe social) . E estranhamente isso entra em contradição com seu pensamento no que diz respeito dos "atentados da sociedade a liberdade natural do homem", pois segundo ele "o homem nasceu livre"(Capítulo I do Livro I).

É assim que um pequeno detalhe pode implicar um grande erro.

10 comentários:

  1. Bom post.

    Ainda na filosofia existem os que querem conquistar pela simpatia e boa aparência, e os que querem fazer pensar, ainda que doa o processo.

    Me lembrou Nietzsche.

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  2. Aristóteles estava errado. Eu nasci numa casa onde não era possível dizer não à nada. Hj tudo o q sei fazer é ser do contra! Aristóteles estava redondamente errado! Uma coisa não tem nada a ver com outra. Nem mesmo a educação dada pode ser imutável. Bastam exemplos e esclarecimentos e todos conseguem ver a verdade desabrochar à sua frente como um lindo caminho a se percorrer!...

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    1. Acho que você não entendeu o texto. O autor expõe exatamente que Aristóteles falava da essência da pessoa e não a condição em que ele está inserido. Se você é do contra não é porque nasceu numa casa onde não era possível dizer não a nada, mas é porque você é essencialmente contra tudo. E nisto mais uma vez está certo o grande Filósofo Aristóteles.

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  3. Rousseau não deturpou o pensamento aristotélico, você é que fez isso....

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  4. Caro Cerberus, minha afirmação de que Rousseau deturpou o pensamento aristotélico está respaldada pelos argumentos expostos, já a sua afirmação deveria começar por refutar os mesmos. No mais, é vazia.

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  5. Lene Angeli... "olha o avião"? Qual é a relevância da sua observação? Aristóteles por acaso disse que se você nasce numa casa em que tal relação predomina esta logo será eterna?

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  6. "Numa palavra, é naturalmente escravo aquele que tem tão pouca alma e poucos meios que resolve depender de outrem"

    Aristóteles define a essência pela condição da escravidão. Digo, o escravo não tem o necessário básico para ser um homem livre justamente por ser escravo, não por não ter as características básicas. A forma exposta beira o ridículo por que parte de um pressuposto onde "qualquer um pode ser um escravo", sem delimitar o contexto socio-político-econômico.

    Basicamente, o que Rousseau fez foi pegar da essência a própria afirmação proto-relativista de Aristóteles.

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  7. entreafoiceeomartelo.blogspot.in/2011/10/influencia-rousseauniana-em-la-boetie.html?m=1

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  8. Tem que ler sobre a servidão voluntária do La Boetie que tá por trás dessa divisão do rousseau. entreafoiceeomartelo.blogspot.in/2011/10/influencia-rousseauniana-em-la-boetie.html?m=1

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  9. Não entendi o texto, pois Rousseau disse exatamente que os escravos são escravos devido ao ambiente em que nasceram. Qualquer um que nasce na escravidão é escravo, logo a escravidão existe porque os há contra a natureza! O cara não teve culpa de nascer neste meio. Releia o cáp.

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