terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mal-estar lucrativo

O Estado liberal, instituição que teoricamente representa a sociedade como um todo, se manifesta claramente como instrumento das classes capitalistas a partir do ponto que prioriza o "triunfo econômico" de entidades privadas em detrimento da coletividade em sí. Aqui a polis perde seus traços caracteristicos, a primazia da entidade coletiva e de certa forma a própria atividade política; os valores civicos e principios políticos outrora tão pregados pela revolução burguesa se tornam supérfluos, meros enfeites num contexto de dominação econômica - defende-se a democracia na teoria no intuito negá-la na prática. O parvo dirá que "cada indivíduo deve cuidar de sua própria vida", mas como o fazer quando o indivíduo é antes de tudo um ser social e uma vida está inevitavelmente ligada a uma outra, sendo que cada uma delas se molda justamente pela atividade social? Afinal o argumento do parvo apela à responsabilidade justamente para poder fugir da mesma, ou seja, do fato que cada ação tem repercussões para além do ser individual..

"Os pecados pelos quais o estado do bem-estar pagava eram os da economia capitalista e da competição do mercado, do capital que não pode manter-se solvente sem enormes custos sociais, em existências despedaçadas e vidas arruinadas - os custos que, no entanto, se recusava a pagar ou não podia pode sobre ameaça de insolvência. Se atualmente ouvimos dizer que, nós "os contribuintes", "já não podemos custea-lo", isso significa apenas que o estado já não considera conveniente ou necessário subscrever os custos sociais e humanos da solvência econômica(que, sob condições de mercado, é equivalente a lucratividade). Em vez disso transfere o pagamento as próprias vitimas, presentes e futuras. Recusa a responsabilidade por sua própria 'má sorte' - exatamente com abandonou a antiga tarefa de "reacomodação" da mão de obra. Não há mais seguro coletivo contra riscos: a tarefa de lidar com os riscos coletivamente produzidos foi privatizada." - Zygmunt Bauman, em “O mal-estar da pós-modernidade”



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