sábado, 23 de abril de 2011

Sobre a Vontade de Poder em Nietzsche, de Paula Agnácio

De Paula Agnácio, retirado de www.consciencia.org

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, no livro Genealogia da Moral, mostra em um primeiro plano a necessidade de desconstruir a moral já dada do homem ocidental, a fim de descobrir como seria a moral ideal, de acordo com a natureza humana.

Para isso, ele analisa e critica a historiografia da moral do homem ocidental, o valor que têm todos os valores construídos até então. Questiona o uso de ideologias, de crenças, pois essas estabelecem valores falsos e ofuscam a realidade. E nos mostra que por trás dos valores construídos pelo homem, tais como a justiça, liberdade, igualdade, esconde-se a Vontade de Poder pervertida.

Os homens construíram a história como se existissem fenômenos morais. Nietzsche nos adverte de que o que existe são as interpretações morais dos fenômenos. Ao interpretar, o homem necessariamente estabelece um valor, que é dado pela sua perspectiva. O perspectivismo é subjetivo, e, nesse caso, falta ao conceito de realidade, uma vez que não há nada que justifique o imaginário.

Nietzsche passa então a desconstruir a moral como a conhecemos, e tenta estabelecer uma nova moral, de acordo com a natureza do homem, tal como ele observa ao longo da história. A sua moral nada tem a ver com efetividade, como a moral aristotélica, por exemplo. A moral que Nietzsche nos apresenta procura elevar em muito a verdadeira natureza dos homens.

Em um primeiro momento, ele vai sugerir a gênese da vontade de poder, partindo de dados históricos, e principalmente através das relações entre senhores e escravos, os soberanos e os submetidos à soberania.

Os soberanos estabeleciam valores. E partiam de si mesmos para definirem primeiramente o conceito de “bom”. Logo, de uma afirmação de si mesmos, para a aceitação e definição de tudo o que poderia ser considerado como “bom” para todo o restante.

Já os escravos valoravam a bondade a partir de um ressentimento, de um sentimento de negação dos seus superiores. Como a origem do conceito de bom segundo Nietzsche é aristocrática, os escravos viam em seus senhores tudo o que eles não poderiam ser, ou seja, tudo o que era bom, era a negação de si mesmos. Para que pudessem se vingar dessa negação, não estabeleceram nada do que fossem eles mesmos como “bom”, então negaram seus senhores. “Se ele for mau, logo, eu serei bom”. Enquanto os nobres eram bons afirmando a si mesmos, os submissos só eram bons enquanto negavam os nobres. E negar atitudes nobres não pode ser considerado necessariamente como uma coisa boa. Pelo contrário, para o filósofo, é sinônimo de fraqueza. E essa é a moral tal como a conhecemos hoje. Tudo o que vem da fraqueza é considerado como “bom”.

Os homens, no decorrer da história ocidental, foram agregando significações pervertidas aos valores que iam se estabelecendo, tal como fizeram os escravos. O homem é o único, dentre os animais, capaz de medir e calcular o poder do outro. Por essa razão, os submetidos transformaram-se em homens do ressentimento. Os homens fracos, aqueles que esperavam pelo momento oportuno para tentarem se vingar dos mais fortes, exatamente por serem fracos e reprimirem seu desejo de vingança. E por conta dessa necessidade de vingança oprimida alimentaram mais o ressentimento. Só foram capazes de agir quando do surgimento das leis e da justiça, que foi criada exatamente para desviar a vontade de poder dos ressentidos.

A valoração dada à justiça também partiu do ressentimento dos fracos. A justiça é uma maneira desses homens se vingarem através das leis, que exaltam o comportamento submisso, numa tentativa de efetivarem sua vontade de poder, quando alguém é castigado por não agir de acordo com os princípios básicos da submissão.

“Assim se imaginou o castigo como inventado para castigar. Mas todos os fins, todas as utilidades são apenas indícios de que uma vontade de poder se assenhoreou de algo menos poderoso e lhe imprimiu o sentido de uma função (…) colocou-se em primeiro plano a “adaptação”, ou seja, uma atividade de segunda ordem, uma reatividade, chegou-se mesmo a definir a vida como uma adaptação interna às circunstâncias externas, mas com isso se desconhece a essência da vida, a sua Vontade de Poder; com isso não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e direções”.[1]

Através das leis, são valorados conceitos de liberdade, justiça e igualdade como bons e necessários a uma sociedade de paz. Mas todos esses conceitos nascem da força do ressentimento, uma vez que a justiça é a sede de vingança, a igualdade não é o fim último dos homens, pois não comporta a vontade de poder, e a liberdade não é dada aos homens para agirem conforme sua natureza.

Na “sociedade de paz”, o homem se viu obrigado a reprimir seus instintos agressivos. E a crueldade, que antes voltava-se para fora, ou seja, para outros homens, acabou sendo sufocada e internalizada. O homem da moralidade foi inibido de sua descarga para fora. A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição – tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos.

A vontade de poder, que comporta todos esses instintos naturais do homem, foi pervertida e internalizada, e agora procura desesperadamente tornar-se imperceptível através do estabelecimento de determinados valores morais, tais como nos são dados.

“Violentamos a nós mesmos hoje em dia, não há dúvida, nós, tenazes, quebra-nozes da alma, questionadores e questionáveis, como se viver fosse apenas quebrar nozes; assim nos devemos tornar cada vez mais passíveis de questionamento, mais dignos de questionar, e assim mais dignos talvez – de viver? Todas as coisas boas foram um dia coisas ruins; cada pecado original tornou-se uma virtude original (…) os sentimentos brandos, benevolentes, indulgentes, compassivos – afinal de valor tão elevado, que se tornaram quase “os valores em si” – por longo tempo tiveram contra si precisamente o auto-desprezo: tinha-se vergonha da suavidade, como hoje se tem vergonha da dureza”.[2]

Após colocar esse problema, da falsa moral, Nietzsche procurou tentar estabelecer uma moral verdadeira, onde o homem pudesse agir seguindo esses instintos naturais, sufocados até então. Podemos chamar de imoralidade, pois parte de princípios diferentes da moral tal como a conhecemos. Uma tentativa de restauração do egoísmo humano.

Uma Nova Moral Adaptada à Vontade de Poder

Os homens da “imoralidade” nietzscheana deveriam ter almas frias e rudes, e o distanciamento de qualquer tipo de afetuosidade.

Seria de extrema importância a estima por si próprio. Esse homem deveria deixar-se guiar apenas pelas “paixões afirmativas”, que são as maiores fontes de força, tais como o orgulho, a saúde, o instinto sexual, a hostilidade, o amor pela guerra e a vontade de poder.

Neste caso, o elogio seria apenas e tão somente uma maneira de exercer e manifestar o sentimento de poder, pois “o que elogia afirma, avalia e julga, arroga-se o direito de conceder, de atribuir honras e louvores”[3]. Só é capaz de elogiar aquele que exalta a vida e tem a consciência do seu poder. O elogio pode atuar até mesmo como vingança dos mais fortes sobre os fracos. Uma forma de manifestação do poder de se impor ao outro, de dar o seu parecer, e essa é uma manifestação da sua vontade de poder.

No entanto, exaltar o heroísmo é para os fracos. O homem da vontade de poder não quer perecer, pois a vontade de perecer num ato heróico não é vital e não diz respeito à natureza. O homem forte entrega-se às paixões afirmativas, dessa maneira, contemplando a vida.

O instinto sexual é de suma importância, dentre as paixões afirmativas. “A excitação sexual crescente mantém uma tensão que tem alívio na sensação de poder. Querer dominar é sinal distintivo de homens sensuais, o declínio do instinto sexual traduz-se por uma diminuição da sede de poder (…) o poder alberga o prazer de provocar sofrimento, em conseqüência a uma imitação profunda do organismo, que incessantemente deseja vingança”.[4] Dessa forma, quanto mais reprimidos forem os desejos sexuais, maior a ambição de poder.

No entanto, o maior dentre os instintos dos homens é o desejo de atacar. E isso foi reprimido na sociedade de paz. O homem forte tem instinto belicoso. A subordinação, a submissão e a obediência não fazem parte dessa parte belicosa, mas sim dos homens que seguem a moral cristã. O homem que é capaz de atacar é o que mais interessa nessa nova moral. Aqueles que são capazes apenas de se defenderem de ataques têm a necessidade de virtudes, e sobrevivem com elas numa falsa moral, com falsos valores “virutosos”.

Predominam nos homens as sensações de força ou de fraqueza, antes mesmo das sensações de prazer e dor. O prazer e a dor podem também estimular a sensação de poder, mas antes delas, a força ou a fraqueza são aquelas que guiam os seus instintos e as paixões as quais irão seguir.

Ao tratamos de paixões, não podemos confundi-las com as paixões “desvirtuosas” como vícios, ou impulsividade. Nietzsche questiona a impulsividade. Os fortes agem conforme os instintos, buscando as paixões afirmativas, mas não necessariamente com pressa nas suas tomadas de decisões.

Dessa forma, seguir aos instintos deve servir ao propósito de desenvolver a sua própria força dominante. Ser virtuoso apenas para agradar aos outros é, de certa forma, uma falta de respeito por si mesmo e pela própria natureza.

“A falta de respeito por si próprio vinga-se, através de todo o gênero de deficiências: na saúde, na firmeza, na coragem, no bem-estar, no orgulho, na vivacidade. Mais tarde não perdoamos à nós mesmos por essa falta de verdadeiro egoísmo, encaramos isso como uma objeção, uma incerteza, quanto à natureza do eu verdadeiro”.[5]

É necessário muito cuidado ao estipular valores virtuosos, pois se estes não seguirem a natureza humana que comporta a vontade de poder, elas podem constituir numa renúncia de si mesmo e ao poder, à vontade de dominação.

Aqueles que compreendem que não se deve odiar o mal, mas que ele também não deve ser enfrentado, procuram agir “virtuosamente” afim de evitar provocá-lo. Podemos perceber este tipo de comportamento nos ascetas, nos tipos “búdicos” amolecidos. E seres “amolecidos” agem contra toda a energia vital e belicosa. Também percebemos esse tipo de comportamento nos cristãos.

O ser virtuoso aristotélico,ou mesmo o ser da bondade cristã, não age senão de maneira discreta a disfarçar sua moral estúpida, uma vez que agir contra os próprios instintos e a própria natureza é renunciar à própria força. As virtudes diminuem o mal. E o mal é um fenômeno natural. É necessário esquecer a compaixão e exaltar o egoísmo, uma vez que a compaixão pela humanidade só pode se dar através do menosprezo para consigo mesmo, e isso não faz parte da natureza, nem dos instintos afirmativos.

A vontade de poder age sobre os homens como uma força acumulada que precisa ser desprendida, mas que, para isso, precisa encontrar algum tipo de resistência para se efetivar. As paixões afirmativas buscam declarar-se contra as coisas, atacá-las com crueldade.

Para Nietzsche, é necessário que se perceba a crueldade de maneira diferente. Ser rude para com outros homens, além de satisfazer o desejo de poder, também coloca os outros à prova, o que faz com que eles também possam demonstrar sua força.

Podemos falar sobre o amor, ao tratarmos da crueldade. Amar e ser amado também consiste em crueldade, tanto para com o outro, quanto para consigo mesmo. Aquele que ama, é cruel consigo mesmo, e satisfaz o seu desejo de força através do masoquismo, internalizando a crueldade, no lugar de direcioná-la ao outro. O ser amado também pode exprimir a sua força exercendo a crueldade para com aquele que o ama.

“Tanto num caso como no outro, há um duplo exercício de poder: o que se faz tiranizar, e o que tiraniza. A vontade de poder torna-se então a necessidade de um confronto tanto externo, como interno”.[6]

Os homens fortes são cruéis, e encontram um meio de vingarem seu orgulho através da crueldade. No entanto, os fracos também podem ser cruéis, se solicitarem a piedade de outros. E nesta relação entre orgulho e crueldade é que se exprime a vontade de poder. Uma espécie de sadomasoquismo da alma, no eterno embate entre o prazer de ser cruel e a dor, que também oferece satisfação e sensação de poder internalizados. A dor e o prazer são interligados, “fenômenos concomitantes”.

“A decisão do sujeito quanto ao que desperta prazer ou dor depende do grau de poder. Uma coisa que, para uma fraca quantidade de poder parece um perigo, que sugere uma rápida defesa, pode produzir – no caso de existir um maior poder, um encanto voluptuoso, um sentimento de prazer (…) e o prazer é: a sensação do aumento de poder”.[7]

Por essa razão, os homens fortes desejam a guerra. Nada lhes causa mais prazer do que exercer sua força, e a guerra endurece a alma, é um forte estímulo para a imaginação que cria dor e prazer, e sentimentos de poder.

A guerra exige constantemente tomadas de atitudes belicosas, e faz os homens procurarem instintivamente pesadas responsabilidades, criar inimigos, e arriscarem tornarem-se inimigos de si mesmos. Assim, exercitam sua força e a vontade de poder, que faz parte da natureza, ao contrário do agir da sociedade de paz, que nos faz agir segundo uma falsa moral, sobre uma “natureza trágica”.

“A hipocrisia cautelosa da inaptidão para o poder apresenta-se:

- na forma de obediência – subordinação, cumprimento do dever, moralidade

- na forma de docilidade, de dedicação, de amor – idealização, divinização de quem comanda, compensação e transfiguração indireta de si próprio;

- na forma de fatalismo, de resignação, de objetividade;

- na forma de tirania exercida sobre si mesmo – ascetismo

- na forma de crítica, de pessimismo, de indignação;

- na forma de boa alma, de virtude.”[8]

Em todas estas situações está expressa a necessidade de exercer algum poder, ou pelo menos de ostentá-lo momentaneamente, a aparência de poder, e não o verdadeiro sentimento de poder.

É benéfico ao sentimento de poder essa comparação com tudo o que é inaptidão para o poder. A comparação com o “inferior” gera uma certa satisfação, um prazer de inferiorizar, o que enaltece ainda mais a própria força. A vontade de poder encontra satisfação na unicidade, no desejo de ser o mais forte dentre todos, único.

Comparar é agir. E agir é interpretar, necessariamente. Ao fazer uma interpretação, o homem impõe ao outro a sua vontade de poder. Mesmo o ato de falar já é uma imposição, quaisquer que sejam as palavras, pois a ação já constitui numa interpretação, numa perspectiva subjetiva. A perspectiva é uma conseqüência natural da vontade de poder.

No entanto, não existe uma vontade de poder de um único homem que prevaleça sobre todas as outras, e sobre isso, o homem é obrigado a viver em conformidade com a sua. Com a sua vontade exprimir sua vivacidade através da força, desenvolvendo e alimentando seu desejo de poder.

Portanto, a doutrina da vontade de poder é um constante vir- a ser.

“Querer é, de imediato, querer um fim. E fim contém juízo de valor. Mas, de onde provém os juízos de valor? Será que têm por fundamento uma norma fixa: de agradável ou doloroso? Contudo, em inúmeros casos, somos nós quem tornamos uma coisa dolorosa ao introduzir nela um juízo de valor… É ampla a ação dos juízos morais de valor: eles participam de quase todas as impressões dos sentidos, que o mundo cobre de tinta. Fomos nós que introduzimos os fins e os valores, isso nos dá uma enorme força latente. Porém, se procedermos à comparação de valores, notamos que uma apreciação oposta à nossa é coisa corrente; então, porque sempre existiram numerosas tábuas de valores, nada tem valor em si”.[9]

A doutrina do homem que escolhe as paixões afirmativas e se guia pelo desejo de poder está em constante reforma, e na percepção da própria natureza e necessidade de exprimir força, num constante vir-a-ser, numa constante vontade de poder. Em Nietzsche a autodeterminação individual é radicalizada, mas não mais conduzida pela idéia de aperfeiçoamento moral. Há uma autonomia inevitável em que cada sujeito luta pela sua afirmação. Como ninguém deu ao homem sua essência, cabe a ele fazer seu destino e ser responsável pelo seu vir-a-ser.

Bibliografia

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Editora Brasiliense, São Paulo, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich. A Vontade de Poder. Vol. II. RÉS Editora, Porto, 2004.

MÜLLER, L.N. A Doutrina da Vontade de Poder. Ed. Annablume, São Paulo, 1997.

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1997.


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[1] NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1987. pg. 81.

[2] Idem, pg. 126.

[3] NIETZSCHE, F. A Vontade de Poder.Vol. II. RÉS Editora, Porto, 2004. pg. 9

[4] Idem, pg. 12

[5] Ibdem, pg. 16

[6] Ibdem, pg.42

[7] Ibdem, pg. 27

[8] Ibdem, pg. 53.

[9] Ibdem, pg. 315.

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