sábado, 13 de agosto de 2011

A vida em Tocache sob o Sendero Luminoso

O Sendero Luminoso foi uma guerrilha comunista(orientação maoísta) com a base formada majoritariamente formada por camponeses pobres e que atuou no Peru principalmente durante os anos '80, perdendo força posteriormente com a prisão de seu líder, Abimael Gúzman. No texto a seguir, Santiago Roncagliolo entrevista Nancy Obregón, que viveu em uma região controlada pela guerrilha. Presente na obra "A Quarta espada - A HISTÓRIA DE ABIMAEL GÚZMAN E DO SENDERO LUMINOSO", o trecho esclarece bem o contexto violento da guerra civil peruana e o comportamento do Estado frente a insurreição, o que por sua vez explica certos "abusos" por parte da guerrilha.

"Nancy cresceu perto daqui, nos bairros populares de Lima, onde sua família criava porcos. No final dos anos 1980, a economia familiar se complicou cada vez mais, até que os pais decidiram retornar ao seu lugar de origem. "Aqui, viviamos na mais extrema pobreza, sem possibilidades de educação ou de crescimento. Meus pais são camponeses de selva, onde a família pelo menos podia trabalhar junta, cultivando para todos comerem. Então, voltaram para lá."

A jovem Nancy ficou em Lima, pois tinha um trabalho na Força Aérea Peruana. E um marido. Mas visitava sua família com frequência. Assim conheceu de perto a selva. No final dos ano 1980, a província selvática de Tocache era um lugar onde "morria gente em cada esquina. Em Tocache, você não podia olhar um narco na cara. E todos eram narcos armados. Todas as noites havia festas, e todas as noites havia mortos. Assaltavam as pessoas, estupravam as mulheres e controlavam a polícia, que protegia seus negócios".

Segundo Nancy, os traficantes pagavam 30 mil dólares para cada vôo com coca que saía de Tocache. E saíam dez vôos por dia. Uma parte desse dinheiro era para a polícia, e outra parte ficava para os municípios. "O primeiro andar da Municipalidade Provincial de Tocache, por exemplo, foi construído com dinheiro do narcotráfico."

Um dia, em visita à região, Nancy foi passear com o marido pelo monte e encontrou gente armada que os chamava de "companheiros". Não era necessário ser um especialista para reconhecer as colunas do Sendero Luminoso, que então iniciavam suas incursões por aquela zona. Nancy e o marido estremeceram: ela era militar e ele, policial. "Tínhamos ouvido falar do Sendero, mas nunca o tínhamos visto. No entanto, a cortesia e a educação deles nos surpreenderam. Gente preparada, universitária, alguns branquinhos como você. Começavam a se aproximar das aldeias mais violentas e mais golpeadas pela máfia. Ali, o Sendero começou a matar os malfeitores, expulsou as prostitutas, limpou Tocache e declarou uma guerra frontal à máfia. E as pessoas começaram a respaldá-los. Fala-se de narcoterrorismo, de vínculos entre o Sendero e os traficantes. Mas o Sendero jamais apoiou os narcos. O Exército e a polícia sim, esses os defendiam. Até cuidavam das casas deles."

A vida em Tocache era uma corda bamba: você caía ou para um lado ou para o outro. Embora fossem membros das forças da ordem, Nancy e o marido não podiam informar seus comandos em Lima sobre o que acontecia na selva. Em primeiro lugar, não podiam denunciar que seus colegas se comportavam pior que os subversivos. Em segundo lugar, temiam ser ouvidos por infiltrados senderistas. "Parece mentira, mas, se dissémos algo em Lima, na selva se sabia de imediato. E na selva estavam nossas famílias. Se contássemos o que acontecia, teríamos problemas com o Sendero. "

Num país ainda abalado pela lembrança da guerra, é muito ousado dizer algo assim. (....)

Quando ela fala, é o Estado que parece um agrupamento terrorista. O Sendero, em contraposição, atua como um Estado.

Num dia de 1990, o Sendero decretou uma paralisação armada em Tocache, onde Nancy morava. Para contê-la, a polícia entrou num vilarejo da zona. Cortou os seios de mulher e mataram várias crianças. Os moradores tiveram que correr para salvar a vida.

A vingança do Sendero não foi mais amável: os guerrilheiros procuraram os autores do massacre e os aniquilaram um por um. (...)

"Então aprendi a ver o Sendero Luminoso como um leão que só mata quando tem fome", diz Nancy. "Os senderistas não estupravam e nem torturavam, ao contrário, respeitavam até os prisioneiros que iam executar. (...) Além disso, enfatizavam muito a educação. Diziam que a má educação era um resquício do Estado colonial dos espanhóis e que, se quiséssemos fazer um novo Estado, tinhamos de começar por respeitar."

Os senderistas instalavam escolas e impunham uma rígida moral nos territórios que controlavam. (....)

Para os "companheiros", era necessário conservar o vinculo da família a fim de mudar o país. As mulheres não podiam usar minissaias e os palavrões eram proibidos, assim como a infidelidade. Seus princípios básicos eram não ser ladrão, não ser dedo-duro e não ser ocioso, uma adaptação guerrilheira das três leis do Império inca. Vagabundos e bêbados eram proscritos. As prostitutas eram afastadas das aldeias mas podiam trabalhar, desde que não fossem escandalosas.

Segundo Nancy, as fofoqueiras também recebiam castigo. Tinham de limpar a aldeia com um cartaz nas costas que dizia : "Isto me acontece porque eus ou mexeriqueira."

A estratégia política do Sendero era criar Estado onde não o havia. Além da educação, eles assumiam funções de poder judiciário. Nancy assistiu a um de seus julgamentos sumários. O réu, um homem conhecido no lugar, era acusado de estupro e assassinato. Nancy não conseguia acreditar. Ela conhecia o homem. Disse que aquilo era uma calúnia. Pela primeira vez, a aldeia se rebelou contra o Sendero. as pessoas vieram defender o réu. A mulher dele chorava. Perguntaram aos senderistas que provas eles tinham do delito. "Os guerrillheiros nos mostraram a vítima. Numa de suas patrulhas, haviam encontrado a moça, meio morta, rodeada pelos cadáveres dos irmãos e do marido, assassinados pelo acasuado na noite anterior. Então a levaram a uma aldeia próxima e trouxeram um médico à base de pancada. A moça passou um mês convalescendo, ams se curou. No dia do julgamento, apareceu para acusar o assassino diante de toda a aldeia. Estava totalmente vendada. Ele começou a correr, mas o senderistas o alcançaram. Quando iam matá-lo, empunharam as metralhadors. Logo na quinta tentativa, explodiram seus miolos. Disseram que só iam enterrá-lo porque ele era conhecido na aldea. mas em princípio, diziam, aquele miserável devia apodrecer ao relento."

Parece difícil entender que isso fosse bem recebido pela população. Mas fica mais compreensível se compararmos com o comportamento do Estado peruano, no qual a corrupção alcançava níves de história de terror; no final de 1991, numa nova legislação reduziu o poder da divisão policial de narcótico e outorgou amplos poderes na região às Forças Armadas. Atrás delas - ou talvez bem mais à frente - etava Vladimiro Montesinos, o assessor de Inteigência do presidente Fujimori.

Pouco depois, o major Evaristo Castillo descobriu que seus companheiros de aamras encobriam e apoiavam os narcos, aos quais passavam informações. Denunciou isso às mais altas instâncias. O comando agradeceu mandando revista sua casa e confiscar seus documentos, e depois o expulsou por "insultar seus superiores".

Em 1996, o narcotraficante Demetrio Chávez Peñaherera, durante seu julgamento, admitiu que ante a imprensa que pagava 50 mil dólares mensais a Montesinos para que este sabotasse as possíveveis batidas da DEA(Drug Enforcement Administration, Força Administrativa de Narcóticos) norte americana e garantisse a segurança de suas remessas de cocaína. Além disso, Chávez tinha aberto um bordel para os soldados e arcava com os gastos deles nos restaurantes. Considerava que isso fazia parte do seu "apoio à luta contra-subversão". (...) O Ministério Público não investigou.

O traficante estava isolado num quartel militar. Não lhe eram permitidas visitas. Dias depois, em seu comparecimento seguinte ao tribunal, apareceu drogado. Seu discurso era incoerente. Ele não articulava as orações. Negou o que dissera na vez anterior. O advogado protestou pelo estado de saúde do preso e porque não o tinham deixado vê-lo antes da sessão. Seu protesto foi negado.

Assim, portanto, as Forças Armadas, que tinham ordem de acabar com o Sendero na zona, eram mais corruptas e brutais. Nancy recorda particularmente um militar, o capitão Cienfuegos, "que uma vez arrancou a orelha de um senderista diante de toda aldeia, inclusive das crianças, em plena luz do sol, e jogou sal na ferida".

A famiília de Nancy também sofreu vexames naquele ano. Certa madrugada, entraram em sua casa uns encapuzados, jogaram seu marido no chão e partiram para cima dele aos chutes. Sua mãe também foi jogada no chão com um pontapé. Nancu devolveu os chutes e desarmou um soldado. Os atacantes meteriam o cano de um fuzil automático na boca do seu filho. O menino tinha 3 anos.

"Eles diziam que eram terroristas e tinham vindo porque, dias antes, havíamos recebido em casa um destacamento militar que nos pedia água. na realidade, nós os reconhecemos apesar dos capuzes. Eram esse mesmo destacamento militar. E queriam levar minha televisão colorida."

O problema é que eles eram péssimos atores. Disseram: "No chão, filhos-da-puta!", e entraram com muita violência. Nancy e seu marido, que tinham estudado táticas contra-subversivas, sabiam que quema ge assim não são os guerrilheiros, mas os militares. Os guerrilheiros, segundo ela, cumprimentam com respeito, chamam seu prisioneiro de "companheiro", explicam a ele muito corretamente por que vão matá-lo e o executam com um tiro. (...)

Segundo Nancy, "os senderistas também cometeram excessos e erros. Não mais, porém, do que os narcos e não mais do que os miitares, pelo menos em Tocache".

Por isso mesmo, ali as colunas senderistas resistiram até muito epois da queda de Abimael Guzmán. (...) Em contraposição, na outra frente, a capital, o sucesso no fim das contas não foi completo e retumbante. Nas cidades, os guerrilheiros estão mais expostos e as autoridades, mais estabelecidas. Hobsbawn já havia advertido sobre os riscos:

Por maior que seja o apoio insurrecional nas cidades, e mesmo que a origem dos seus dirigentes seja urbana, as cidades, e especialmente as capitais, são o último reduto que um exército guerrilheiro capturará. São o último ponto que um guerrilheiro atacará, a menos que esteja pessimamente aconselhado."

Um comentário:

  1. Andre, novamente, dando vários tapas na cara da midia burguesa! Meus parabéns, o texto eh ótimo !


    E o mais importante: Mostra como a midia fascista nao divulga informações importantes, alem de manipula-las, por preocaucao.



    Viva o socialismo, companheiro! Todos seremos livres um dia!

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