sexta-feira, 24 de agosto de 2012

"O projeto marxista é inseparável da ideia de ateísmo"

"A terceira diferença essencial [entre Marx e Saint Simon] vem de Marz ser ateu desde o princípio, assim permanecendo por toda a vida. O ateísmo é fundamental em seu pensamento, e o projeto marxista é inseparável da ideia do ateísmo. Não se pode separar a ideia de desalienação, a de realização do homem nesta terra, da intenção atéia de Marx. Pode-se evidentemente, construir uma economia planificada e acreditar em Deus, isto é óbvio e seria idiota pensar o contrário; mas, se o marxismo for levado a sério enquanto empreendimento filosófico-político, o ateísmo deve ser considerado inseparável, intrínseco. Os saint-simonianos participaram do lançamento de grandes trabalhos industriais, da abertura do canal de Suez, da fundação de bancos, do desenvolvimento das forças produtivas, mas nunca se tornaram um movimento filosófico-político comparável ao marxismo, pois lhes faltava o que foi a glória histórica do marxismo, isto é, a combinação de uma intenção filosófica e de uma intenção política ou, se preferirem, a junção da filosofia com os proletários¹. " Raymond Aron em "O MARXISMO DE MARX", Arx. São Paulo, 2008, pg. 269

¹Temática muito presente no "Jovem Marx", especialmente no "Crítica da Filosofia do Direito de Hegel", onde ele aponta o proletariado como "portador material da filosofia"(lembrando que nesse caso falamos de um Marx hegeliano e que ainda não havia desenvolvido uma ideia de "autonomia do proletariado" enquanto "força ativa", porém acredito, como Aron, que esta intenção filosófica se conserva no marxismo).

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Bem-vindo ao McMundo


O Presidente da Gillete, Alfred M. Zeien, disse certa vez: "Para mim, os países estrangeiros não têm nada de estrangeiros". Bem vindo ao McMundo. Não há atividade mais globalizadora que o comércio, ideologia menos interessada em nações do que o capitalismo, nem desafio às fronteiras mais audacioso do que o mercado. Em muitos sentidos, nas questões globais as grandes corporações são hoje atores mais importantes do que as nações. Nós as chamamos de multinacionais, mas, mais precisamente, são transnacionais ou pós-nacionais ou, até mesmo, antinacionais, pois elas renegam a própria ideia de nação ou qualquer outra divisão territorial que as limite de alguma forma. Seus clientes não são cidadãos de uma determinada nação ou membros de um determinado clã: pertencem todos à tribo universal de consumidores definida por necessidades e desejos que se tornam evidentes, se não pela natureza, então pelo expediente da propaganda. Um consumidor é um consumidor é um consumidor.  - Benjamin R. Barber em JIHAD X McMUNDO. Record, Rio de Janeiro, 2003, pg. 55

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Um liberal e um estalinista discutem os expurgos

Dois homens discutiam em um salão acadêmico. Um deles, feroz liberal, provocava o outro, convicto estalinista. Agressivo bradava o liberal, impassível permanecia o estalinista.

LIBERAL: O comunismo é ditatorial! Veja a URSS, ninguém matou mais comunistas que Stálin.

ESTALINISTA: E como Stálin conseguiu tal façanha?

LIBERAL: Através dos expurgos! Através dos expurgos Stálin se livrou de seus desafetos.

ESTALINISTA: Não compreendo, camarada. Se os expurgos foram mero capricho de Stálin, então não comprovam o caráter ditatorial da URSS ou do comunismo, pois não se tratam de ações provindas do Estado e sim de manobras de Stálin que ocorreram num contexto de resolução de conflitos internos numa jovem entidade política ameaçada e você, como bom conhecedor de Maquiavel, sabe que essas coisas são bem possíveis. Seria mais adequado, então, dizer que Stálin procedera como algo próximo a um mafioso, porém não como um ditador agindo através de uma máquina ditatorial.

LIBERAL - Está vendo, Stálin era um mafioso!

ESTALINISTA - Isto desmente completamente sua afirmação inicial. Se Stálin de fato o era, então os expurgos foram manobras a margem da lei e não obra estatal, logo não se trata de uma questão de "ditadura". Sabemos muito bem que os expurgos atingiram com força justamente a espinha dorsal desse Estado. Ditatorial? Claro, sob muitos aspectos, como qualquer Estado e como assumiriam os bolcheviques, porém não nesse sentido moralístico e maniqueísta que você e sua claque pretendem conferir a palavra "ditatorial", ainda mais apelando para os expurgos. Se eu atacar o liberalismo falando da corrupção no Estado liberal, você protestará veementemente. De qualquer forma, vejo que você está confuso e é incapaz de manter a coerência, somente quer atacar o comunismo a qualquer custo e sendo assim não podemos manter uma discussão civilizada, cavalheiro. Como posso argumentar nessas condições? Nessas condições nos acomodamos no conforto de barricadas e debatemos com fuzis. Saudações.

(Informação sobre os expurgos: os expurgos foram instituídos durante o período Lênin, depois da tomada do poder, nos intuito de limpar o Partido de "maus elementos" - indisciplinados, carreiristas, etc. Era um procedimento normal do Partido, porém durante o "Grande Expurgo" do período Stálin ele assumiu proporções relativas a investigação criminal, o que é relativamente compreensível levando-se em conta o momento em que se encontrava  União Soviética - consolidação do Estado, véspera da guerra, tensão interna, industrialização rápida, coletivização do campo, provocações externas, sabotadores, etc)