segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"O tsar é o Estado em si mesmo"

Abrindo o livro de Pipes "Russian Conservatism and Its Critics" (Yale University Pres, 2005) antes mesmo do índice encontramos a citação que transcrevi logo abaixo. Creio que a mesma descreva perfeitamente a essência do tsarismo e, em parte, da monarquia no geral (mais especialmente da monarquia absoluta, apesar dessa mesma no ocidente ser fundamentalmente diferente de sua versão oriental russa - espero poder abordar isso mais precisamente no futuro ou compartilhar material a respeito). Devido a uma mentalidade demo-liberal e a história recente pode ser um pouco difícil para alguns entender. Dizer que se suas decisões foram duras para o povo então ele foi mal interpretado não se trata de cinismo (até porque não há "povo" para enganar), mas sim de uma descrição politicamente precisa. Não existe nesse contexto "ideologia" conforme geralmente se entende, e é absurdo falar em "totalitarismo" fora da sociedade industrial de massas (na verdade eu diria que tal categoria é insuficiente até mesmo para os países que são assim classificados).  O tsar, justamente por ser o tsar, não precisa se justificar. Isso é facilmente compreensível para os que estudam o "monarquismo" ou tem interesse em história, sendo relevante somente para leigos em geral e insolentes com transtorno de personalidade desafiante (desses estranhos que falam "besteira!" como se aqui tivesse alguma coisa em jogo).

"Na concepção do povo Grão Russo, o tsar é a forma corpórea do Estado.... Ele não é chefe do exército, nem a escolha do povo, nem o chefe-de-estado [head of state] ou representante da administração, nem mesmo o sentimental  Landesvater [pai do povo] ou o bon père des peuples [bom pai do povo]... O tsar é o Estado em si mesmo - ideal, benevolente e, ao mesmo tempo, sua expressão severa. Ele é superior a tudo, colocado além de todas as dúvidas e disputas, e por essa razão, inviolável. Por essa razão, também, ele é imparcial para todos: todos são iguais frente a ele mesmo se eles são diferentes entre si. O tsar deve ser deve ser sem pecado. Se as coisas vão mal para o povo, não está ele errado e sim seus servidores. Se as ordens do tsar são duras com o povo isso significa que ele foi mal interpretado. Ele não pode querer nada de mau para o povo... Nos mais tempos mais duros e difíceis, quando eles devem sua vida política quase a partir do zero, o povo Russo, antes de tudo,  restaurou a autoridade tsarista." - K. D. Kavelin, "Pensamentos e Observações Sobre História Russa"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Quem tem medo do PSTU? A esquerda oportunista ataca novamente

Depois das declarações estapafúrdias de seu militante Aldo Cordeiro Sauda, o PSTU finalmente lançou sua nota oficial sobre Yoani Sanchéz, confirmando o seu caráter oportunista.

Sendo a nota do PSTU idêntica a posição do Sr. Cordeiro, o texto "A Visita de Yoani Sanchéz e a esquerda oportunista" segue pertinente.

O documento, assinado pelo Sr. Diego Cruz e intitulado "Quem tem medo de Yoani Sanchéz?", segue pela via de passar a imagem de uma “posição lúcida” na defesa de um “debate sério”.  Nessa linha, argumentam sobre a “restauração do capitalismo em Cuba”, mostram como seus adversários são “ingênuos”.  Em outras palavras, desviam o foco de Yoani Sanchéz. Esse artifício é utilizado justamente no sentido de defender a necessidade dela falar por ser uma “ativista democrática”, posição que o documento sustenta afirmando que o que existe em Cuba é “o controle de uma ditadura de partido único, que não permite qualquer liberdade de expressão ou organização”. O autor, esse especialista em materialismo histórico, ignora completamente a constituição do poder popular em Cuba, como as assembleias locais nas quais Yoani nunca participou, preferindo disparar uma generalidade que aprendeu com a mídia burguesa (e que o PSTU endossa). O debate democrático ocorre sim em Cuba e não só nas instâncias de poder popular (incluindo órgãos superiores como a Assembleia Nacional), como ficou demonstrado nos debates massivos que precederam o último congresso do Partido Comunista Cubano. Esse debate se estende a diversas instâncias além das células do Partido. Temos um exemplo claro no livro “Cuba: Ni Dogmas Ni Abandonos”, que possui diversos textos de diversos intelectuais cubanos que visam contribuir a construção democrática da sociedade cubana, sendo que muitos deles compartilham dessa visão idealista semelhante ao oportunismo liberal do PSTU. O PSTU, que não tem Lenin na sua biblioteca, desconhece o argumento leninista presente em “Imposto em Espécie” que gira em torno da primazia do político – “fora o poder, tudo é ilusão”. Mas o PSTU, que ignora a situação econômica de Cuba, provavelmente acredita que um “regime operário de verdade” lidaria com os problemas cubanos com muito mais facilidade que o proletariado realmente existente em Cuba, estabelecendo o socialismo por decreto.

É muito fácil reduzir a realidade a um quadro ideal formulado segundo a ideologia burguesa onde “cada um dá sua opinião”, mas para isso é necessário desprover dessa realidade grande parte de sua concretude.  É exatamente isso que o PSTU faz ao apelar para a retórica democrática e ao inocentarem Yoani das acusações de agente da CIA tratando isso como “acusação castrista”. O autor, um ignorante que não deveria se manifestar sem pesquisar ou um desonesto que se manifesta em nome de interesses escusos, faz o mesmo que os conglomerados brasileiros e finge que o fato dela servir direta e abertamente aos interesses do imperialismo e ser financiada por grandes aparatos de hegemonia de classe não diz absolutamente nada.  Aqui desaparece a estratégia norte-americana desde Helms-Burton (apoiar elementos como Yoani Sanchez) e o trabalho da CIA desde o seu nascimento. Tudo vira um grande campus universitário onde o proletariado pode enfrentar a burguesia livremente na mesa de debates – eis o “marxismo” do PSTU.  É esse mesmo “marxismo” que se preocupa em oferecer uma imagem “aceitável” do socialismo à mídia burguesa, já que o autor diz que “o castrismo é responsável por reforçar o estereótipo do socialismo do socialismo associado a caricaturas totalitárias”. Mas quem são os responsáveis por essa caricatura senão a burguesia e seus instrumentos de hegemonia aliados ao PSTU (fui redundante aqui?)? Aqui o partido renegado assume a profundidade de seu materialismo histórico: ele lida com “caricaturas” e não com a realidade concreta, o que já ficou mais do que provado em sua preocupação em falar de “democracia” e “ditadura” como formas ideais puras desvencilhadas da história e das classes, fazendo jus ao catecismo burguês.  É impressionante pensar que nem Trotsky era capaz de tamanha fineza intelectual, mas no que Trotsky sequer alcançou certos trotskistas superaram até mesmo os limites imagináveis.

Apesar do oportunismo e a hipocrisia do PSTU nunca terem alcançado limites tão altos como nesse caso, eu diria que, apesar de correto, é problemático acusar o documento em si de oportunismo, pois o mesmo destila a ideologia burguesa sem disfarces ou rodeios.  Objetivos concretos e a luta de classes são trocados pela “democracia” e pela “liberdade de expressão” num nível abstrato. O caráter mistificador da ideologia burguesa contida no documento fica claro em trechos como “se não concordam que lá existe uma ditadura, porque não argumentam e apresentam seu ponto de vista?”, como se houvesse uma “igualdade de condições“ entre a Yoani apoiada pelo imperialismo e os grandes conglomerados e os manifestantes que dispõem no máximo de suas vozes.  E é esse o “debate” que o PSTU defende, o debate entre a esquerda e uma agente da CIA? É por isso que o PSTU não comparece no debate que ele mesmo prega, porque já está devidamente representado por Yoani Sanchéz? E, voltando na história, porque Lenin  e os bolcheviques (e Trotsky, já que gostam tanto dele) ao invés de suprimir a Assembleia Constituinte burguesa em prol do Congresso dos Sovietes não participaram da mesma, argumentaram e apresentaram seu ponto de vista?

Antes de colocarmos a posição do PSTU “acima do conflito” em um mundo ideal onde só existem opiniões independentes uma das outras, devemos ver o que há por trás do discurso nebuloso do documento e avaliar seu valor prático, o que ele representa politicamente. Concluímos que:

a) O PSTU mais uma vez assume a mesma posição que o imperialismo. Isso foi o que ocorreu com a devastação social no leste europeu pós-1991 e com a "primavera árabe", mas aqui sequer temos as “massas de mentirinha” formada por mercenários como o caso líbio (ou qualquer revolução laranja, essas queridas do morenismo – nesse caso se trata somente de uma única mercenária que faz parte de uma estratégia de isolamento internacional do imperialismo contra o regime cubano (e aqui é irrelevante o caráter social do mesmo) sendo endossada pelo PSTU. 

b) Essa posição não é justificada segundo uma ótica marxista, mas sim com a afirmação nua e crua da ideologia burguesa, da "democracia e da liberdade". É correto debater com agentes do imperialismo, afinal o debate por si só contém em si um valor místico inexplicável. É aceitável fazer frente com o imperialismo em nome desses “valores universais”, quer dizer, tanto faz que forças estão por trás de Yoani, o importante é que ela é uma “democrata”.

c) Ao pretender se situar acima do confronto o PSTU assume uma posição esquerdista que, como dito, favorece o imperialismo.

O texto termina dizendo que “a esquerda identificada com o castrismo deve desfazer-se de seu arsenal de calúnias e acusações estalinistas e debater essas questões de forma franca, com idéias e argumentos”.  Como pode um partido reconhecido pelo seu sectarismo e que responde toda crítica apontando “stalinismo” do interlocutor , ou, como nesse caso, rotulando os outros de “esquerda castrista”? O oportunismo do PSTU fica ainda mais claro quando contrastado com a posição do eixo Nova Democracia-MEPR-LO-LCP, que sempre teve críticas a Revolução Cubana e nem por isso se põe a louvar agentes da CIA. Fato é que agora a face do oportunismo fica mais clara para todos os brasileiros e a base do partido deve se desligar o mais rápido possível dessa organização pró-imperialista.

[NOTA: Gostaria de saber a opinião do PSTU sobre o tratamento dispensado pela Revolução Russa aos partidos burgueses, mencheviques, anarquistas e socialistas-revolucionários, assim como aquele dado a contrarrevolução de Krondstat, conduzido pelo próprio Trotsky]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A visita de Yoani Sanchéz e a esquerda oportunista


A visita da blogueira cubana Yoani Sanchéz tem causado grande polêmica no cenário político brasileiro. A grande mídia tem tratado a mesma com louvores e como a principal dissidente cubana. Setores da esquerda, por sua vez, expõem incansavelmente as diversas incongruências do discurso da cubana, assim como seus patrões/financiadores (existe material abundante a respeito, mas para citar um exemplo, que me eu lembre o primeiro numa sucessão de desmascaramentos, é fato dela ter sido fotografada usando Wi-Fi de um hotel internacional justamente na época em que ela declarava sua “pobreza” e falta de acesso a internet, tendo que enviar os “posts” por SMS).

Apesar desses esforços, existe uma “outra esquerda” que defende Yoani Sanchéz. Essa outra esquerda pode ser chamada de "esquerdista" no sentido usado por Lenin, esquerdismo como doença infantil. Uma boa definição de esquerdismo é o ato de colocar princípios ideológicos acima de imperativos políticos.  No dia de hoje, um quadro do PSTU que reside no Cairo e dispõe de espaço em grandes meios de comunicação como a Folha para escrever a favor dos mercenários sírios, Aldo Cordeiro Sauda,  nos deu um exemplo lançando a seguinte nota em uma rede social:


“Há uma turba violenta, formado por stalinistas raivosos, que tem atacado a blogueira e ativista Yoani Sanchez no Brasil. Estes cães de guarda da burocracia restaurancionista de Castro em nada servem ao legado da Revolução Cubana.
São imbecis atacando uma ativista que clama por democracia em um país capitalista (sim, em Cuba o capitalismo foi restaurado) controlado por uma ditadura stalinista de direita.
Estes animais em nada representam a gloriosa revolução cubana e suas grandes conquistas - cuja burocracia de castro, que a turba tanto venera, tem atacado.”

Como podem ver, para o nosso marxista, dito adepto do “materialismo histórico”, é tudo muito simples. Cuba é uma “ditadura burocrática” que já restaurou o capitalismo e, portanto, a “ativista que clama por democracia” deve ser apoiada – os que se opõem são uma “turba violenta” formada por “stalinistas raivosos”. O Sr. Cordeiro não se importa se Yoani recebe milhares de dólares do exterior, se seu blog é estranhamente traduzido para 15 línguas ou se o mesmo é endossado pelo Estado norte-americano (fatores semelhantes não o impedem de apoiar os rebeldes sírios). E apesar de não se importar com isso, não se importar com o fato de Yoani ser contra a Revolução Cubana, ele termina seu pequeno texto se referindo as “conquistas gloriosas da Revolução”. Ora, mas será que o mentecapto imagina que Yoani apóia, de fato, essas conquistas? Para o Sr. Cordeiro não existe contradição entre uma ativista que reconhece a reivindicação do imperialismo de receber de volta suas propriedades e as “conquistas da Revolução”, somente entre estas e a “burocracia de Castro”, o mesmo Castro que liderou e dirigiu essa revolução.

O que Sr. Cordeiro e seu trotskismo nos oferecem não é uma análise concreta da situação concreta e sim o ladrar em nome de consignas abstratas sobre “democracia e liberdade”, ignorando completamente todos os interesses em jogo. Marxistas como Lenin são extremamente felizes ao declarar que não existe “democracia e liberdade” fora da história, quer dizer, como “realidades espirituais puras” independentes da realidade concreta. “Democracia” para Yoani é a supressão das assembléias populares, das organizações de massa e das já ameaçadas conquistas sociais da revolução em prol da instauração do pluripartidarismo burguês, do mercado livre e da restituição das propriedades norte-americanas. Apesar deste fato, o número de canalhas que se dizem marxistas é tão grande que, nessa mesma nota, uma mulher identificada como Gabriela “Guarani-Kaioá” Hipólito comentou respondendo a uma voz isolada da razoabilidade:


“...se quer discutir conosco, nós os trotskistas (incluindo o Aldo) tem que debater a realidade concreta, não apenas achar que falar de morenismo é atacar alguém.
(...)
Sobre a tal figura, não faço a mínima ideia de quem ela seja realmente e a quem represente. Porém há um ponto concreto, o sistema antidemocrático, obsoleto e repressor de Cuba (Além de tudo o que o Aldo falou acima) deve sim ser questionado. E não com uma faixa escrita que nenhuma criança passa fome em Cuba, por que espero, sinceramente que ninguém aqui ache que socialismo é isso.”


É esse o “marxismo” do PSTU: “antidemocrático”, “obsoleto” e “repressor” são categorias concretas no mundo dessa gente. É lastimável que esses “militantes” leiam as cartilhas da CIA ao invés de obras muito adequadas como “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky” ou "Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo".  Não existe “democracia no geral” e não existe Estado que não seja repressor – e a repressão é duplamente necessária em um Estado numa situação de cerco como é o caso de Cuba. Entre os comentários são abundantes os exemplos de pequeno-burgueses choramingões que são de “esquerda” e ignoram completamente o critério de classe em prol da “democracia” e da “liberdade”. Uma inclusive fala do “horror das ditaduras comunistas”, ignoram relações de produção e desenvolvimento das forças produtivas. “A ‘democracia pura’ é uma mentira de liberal para enganar os operários”(Lenin, “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky").  Neste caso, o Sr. Cordeiro está repleto de argumentos para nos provar que Cuba restaurou o capitalismo.  Talvez reconhecendo internamente a verdade implacável sobre o caráter de Yoani Sanchéz, o trotskista tenta convencer por outra via e nos presenteia com dados sobre as alterações no sistema econômico cubano.

....

Mas isso justifica apoiar uma agente da CIA?

Do ponto de vista do Sr. Cordeiro, i.e., do ponto de vista da ideologia burguesa (conforme será demonstrado), sim. Segundo ele, numa postagem mais recente, a tal “turba stalinista” está a assassinar a Revolução Cubana por atacar o “direito sagrado a liberdade de expressão” da crítica do “regime ditatorial”. Certamente as cartilhas do PSTU-CIA somadas ao seu curso de Relações Internacionais numa das universidades mais caras do país não permitiram que ele lesse Lenin uma vez sequer. Mais uma vez ele massacra a realidade concreta em prol de uma abstração nascida nos tempos da revolução burguesa.  Em contrapartida, o Sr. Cordeiro não parece usar seus espaços, seja em seu blog, nas mídias do PSTU ou na Folha, para defender pessoas os cinco de Cuba ou Bradley Manning. Não é muito diferente da colunista da Carta Capital que se aproveitou do momento para difundir seu “anti-comunismo light”, desmerecer as evidências contra a Yoani e dizer que quem a faz crescer é a “repressão do regime”(que até agora não a impediu), demonstrando total ignorância sobre qual vendo sendo a abordagem norte-americana com Cuba desde os anos 90 (financiar e incentivar uma oposição pacifica que corroa o regime desde dentro, ao invés do velho terrorismo à Posada Carriles, Alpha 66 e as tentativas de assassinato de dirigentes).

Paralelos a parte, é realmente muito engraçado que o intelectual orgânico do imperialismo pose de defensor da Revolução Cubana. Se os “stalinistas” são responsáveis por tentar assassinar a Revolução Cubana, ele é o que? Ele que defende uma inimiga declarada da Revolução Cubana se escondendo atrás de embustes como “liberdade de expressão”? Isso é típico de trotskistas (que já apoiariam Yeltsin como “novo Trotsky”), porém é mais ainda dessa abominação da qual ele e o PSTU LIT-QI são adeptos, o morenismo. O morenismo é a corrente que em nome de suas aberrações teóricas acerca de “democracia e liberdade” aplaudiu a devastação social que se abateu sobre os ex-membros da União Soviética.

Os erros de Trotsky se repetem em seus seguidores, seja em termos de colaboração com o imperialismo ou na psicologia dos mesmos. Quando Lenin disse que “Trotsky só é fiel a si mesmo” ou apontou a total irreflexão das posições do mesmo na polêmica dos sindicatos, se referia a um traço psicológico bem descrito por Deutscher. O intelecto de Trotsky, realmente de muito potente e refinado, era muito bom em encontrar problemas, independente das questões políticas mais práticas (isso se verifica em toda a sua história: Trotsky contra o “pequeno Bonaparte” Lenin, Trotsky liquidacionista, Trotsky da oposição de esquerda, etc). É exatamente o que faz o Sr. Cordeiro. Ele, ao contrário dos ignorantes, sabe que “Cuba não é socialista” e, revoltado com o erro desses que não sabem que Cuba é na verdade capitalista, defende Yoani Sanchéz sem levar em conta as forças políticas por trás da mesma (eis a base psicológica do esquerdismo). É preferível fazer frente com a reação do que "ceder nos princípios". Apesar disto, eu diria que talvez essa posição do Sr. Cordeiro não se reduzisse a mera arrogância intelectual desconectada da realidade, e sim de uma ligação mais concreta com as forças do globalismo (afinal, seja na Síria, na Líbia ou em Cuba, ele não perde uma oportunidade fazer frente com o mesmo). Sendo o acompanhante de Sara Al Suri em sua turnê pelo Brasil, é normal que ele tenha afinidade com o tipo.

A questão aqui não é a diferença teórica entre socialismo e capitalismo, e sim o antagonismo concreto entre duas nações, a diferença entre ser e não ser agente da CIA. Quanto ao critério de classe, as forças que financiam Yoani e as quais ela empresta sua voz já foram bem expostas. Fato é que fica demonstrado que essa “outra esquerda” não pensa nem em termos de classe e nem de pragmatismo político.

O PSTU até agora não disse nada sobre a visita de Yoani e é notável que tal silêncio não se verificou na prontidão do partido em defender a agente da CIA Sara Al Suri. Recomendo as pessoas de boa féque se informem sobre Yoani Sanchéz e de preferência adquiram algum conhecimento das estratégias norte-americanas para não cometerem erros inocentes como de Cynara Menezes da Carta Capital, que aparentemente prefere usar a imaginação ao invés de falar da realidade. O Sr. deputado Jean Wyllys, junto com o sr. Suplicy, são outros que falam do "direito de Yoani se defender" - ela é apoiada pelos principais conglomerados de mídia e está sendo "reprimida"?! É necessário diferenciar as contradição não-antagônicas, que se resolvem na conversa, de contradições antagônicas (aquelas que temos com a CIA e os EUA). Para não perceber estas realidades, é preciso ser, como disse Lenin (A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky), “um servidor consciente da burguesia ou um homem totalmente morto politicamente, que não vê a vida viva por trás dos poeirentos livros burgueses, impregnado até à medula de preconceitos democrático-burgueses, pelo que se tornou objetivamente um servidor da burguesia.” 

(nota posterior: me pergunto como esses trotskistas lidariam com a violência da Revolução Russa, se eles sabem o que "Trotsky fez"[figura de linguagem] de "horrível". Isso certamente abordarei em outros texto, que infelizmente veio adiando há algum tempo)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Arte Musical na Coreia do Norte - PARTE I


“Onde há vida há música, e vice-versa. A música é a arte mais intimamente vinculada a vida humana; desperta no homem ardente entusiasmo pela vida, aprofunda seus sentimentos, aumenta seu ardor e infunde-lhe otimismo e esperança no amanhã.”

KIM, Jong Il. “Arte Musical” , 17 de julho de 1991. Kim Jong Il – OBRAS ESCOGIDAS, Tomo XI Ediciones en Lenguas Estranjeras, Pyongyang , Coreia, 2006. Pg. 374

A Coreia do Norte, República Popular Democrática da Coreia (RPDC), é um mistério para a maioria das pessoas. Tudo para esdrúxulo, desde o sistema político até a cultura, sem esquecer das pessoas (esse povo estranho!), claro. A grande mídia, no geral, não colabora para desvendar a nuvem de fumaça acusando esse país de ser “fechado”  e ao mesmo tempo repete as acusações dos inimigos da RPDC. Se em relação ao geral é assim, o que dizer da música então? Ritmos provenientes da música pop norte-americana (e mais recentemente sul-coreana) são muito familiares para as pessoas, porém não é raro (se há contato) estranharem a música norte-coreana (o que é natural). Muitos reduzem a mesma a alcunha de “música totalitária” ou pensam que ela se resume a marchas militares.

Fato é que, apesar das barreiras, muita gente tem se interessado pela música norte-coreana em específico e pela RPDC no geral. Nessa série de artigos buscarei satisfazer a curiosidade de muitos, falarei sobre o conceito da música coreana, sobre seu desenvolvimento, sua produção e sobre minha “experiência pessoal” (opinião) com a mesma. Eu, que já estive duas vezes na RPDC (durante dez dias, nas duas vezes), tive bastante contato com a música coreana, além de ter acesso a uma ampla literatura a respeito e material musical propriamente dito.  A principal obra de referência utilizada, pelo menos a princípio, será  “Arte Musical”, de Kim Jong Il, publicada em 17 de julho de 1991 e presente no Tomo 11 das Obras Escolhidas de Kim Jong Il (versão em espanhol, Ediciones en Lenguas Estranjeras, Pyongyang , Coreia, 2006). A obra é bem sintética e é razoável considerar a posição de Kim Jong Il dado sua liderança espiritual e presença na direção do Partido do Trabalho da Coreia,  cujo papel em relação a música será esclarecido através da série.

Falar da música norte-coreana, além de ter um valor artístico, tem antes de tudo um significado político, sendo uma via para se conhecer melhor o regime coreano. Esta série servirá tanto aos interessados na arte musical quanto aqueles interessados em política e no regime coreano.

PARTE I – O QUE É A MÚSICA?
Para falarmos da música coreana devemos começar com as definições. O que é a música? Para que ela serve, qual sua missão, seu caráter, seus fins? É preciso antes de tudo assimilar a concepção musical norte-coreana.

“Para impulsionar atividades criadoras, o homem necessita, por natureza, capacidade ideológica e espiritual e um fator que o satisfaça no plano estético e emotivo. A arte é um poderoso meio para cobrir esta necessidade. (...)A música é um gênero artístico que manifesta as ideias e os sentimentos de maneira a exteriorizar, por um impulso interior, o que se sente. A arte e a literatura expressam as ideias  e os sentimentos do homem. No entanto, a música em características peculiares que a diferencia no modo da representação.  É uma arte especial que com sons musicais expressa os sentimentos e emoções que o ser humano experimenta. Principalmente, mostra as experiências emotivas que adquire na realidade, os sentimentos estéticos que se originam dos impactos psicológicos.  Mesmo que não se possa explicar diretamente em detalhe como a literatura o que quer expressar, nem reproduzir como a pintura a realidade que se estende ante a vista, manifesta o mundo psicológico e emotivo do homem de um modo mais refinado e profundo que qualquer outra arte.” (IBID. pg. 376-77)

Kim Jong Il, como bom marxista, enfatiza a natureza social da arte. A música deve ser, então, fiel ao que seriam as exigências de sua época, sendo esse processo de reflexão da realidade social seu conteúdo principal. Explica:

“O homem, em virtude seu atributo de independência, adota um critério e uma atitude sobre a situação real em que se encontra, manifestando contento ou descontento. “ (IBID. pg. 376)

Creio que não é razoável reduzir a criatividade humana, a potência de um cérebro individual, à condições históricas, a regimes sociais e relações de produção. Porém é forçoso admitir que, sendo a realidade na qual o homem está inserido, esses fatores interferem consideravelmente em sua concepção de mundo e no processo criativo. De qualquer forma, essa é a premissa principal da música norte-coreana.

Sendo assim, existe uma música adequada para cada época. E a época atual na Coreia, de construção do socialismo, é a “época do Juche”. Resumidamente, a Ideia Juche diz que o homem é um ser social dotado de criatividade e independência, “dono de tudo e decide tudo”, existindo uma “independência em si” (o homem enquanto ser consciente, por si só) e a “independência para si”(a luta política pela emancipação). Politicamente, por “homem” entende-se massas populares, e o socialismo jucheano (que é, sim, de matriz marxista) se resumiria na fórmula “as massas populares são donas de tudo e decidem tudo”.  Juche significa "independência".

Se a época é jucheana a música deve ser, portanto,  jucheana.  Essa idéia de “dever ser” é o principal para compreender a música norte-coreana, por isso eu dividi as principais características da música jucheana em diferentes tópicos que serão tratados individualmente nos próximos artigos. Poderei abordar cada uma das características mais profundamente e não estender demasiado em um único texto.  No próximo artigo será abordado o conteúdo político da “música jucheana” e as questões polêmicas em torno disso (totalitarismo, ditadura, liberdade de criação, etc). Dúvidas e sugestões a respeito serão bem vindas.

PARTE II - O CONTEÚDO REVOLUCIONÁRIO

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Todo conceito político é um conceito polêmico



“Todos os conceitos políticos se originam de uma contraposição concreta, de política externa ou interna, e são,  sem essas contraposições,  apenas abstrações equívocas, sem sentido.  Não é aceitável, portanto, abstrair da situação concreta, isto é, do antagonismo concreto.  A consideração teórica  das coisas políticas tão pouco pode desconsiderar esse ponto.  Todo conceito político é um conceito polêmico. Ele tem em vista um inimigo político e está determinado em seu nível espiritual, sua força intelectual e seu significado histórico pela força de seu inimigo. Palavras como soberania, liberdade, estado de direito e democracia adquirem seu sentido preciso através de uma antítese concreta. Em uma discussão científica, ao menos isso deveria ser levado em conta.”

Carl Schmitt, citado por Bernardo Ferreira em OS INTELECTUAIS DO ANTILIBERALISMO, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010, pg. 74
Carl Schmitt foi um jurista alemão antiliberal com vasta obra na filosofia política. Seu pensamento se tem como base o par amigo-inimigo, o que já é ir na contramão da ideia de harmonia liberal ("não existem inimigos, somente competidores"). Afinal seria possível imaginar as ideias da Revolução Francesa sem o Antigo o Regime? Não só as ideias, mas mal podemos conceber instituições sem levar em conta os antagonismos concretos. Olhem para Roma, ou olhem para a Atenas, não haveria solo fértil para triunfar um Sólon sem os rígidos conflitos que que abatiam a cidade, com oligarcas e democratas lutando pela hegemonia. 

O pensamento marxista também enfatiza que ideias e instituições nascem de necessidades históricas, das condições objetivas e mais especificamente de contradições (apesar de boa parte doa "marxistas" de hoje e ontem terem penhorado isso em prol de uma visão utópica de "sociedade ideal"), porém é importante ressaltar a diferença que Schmitt se concentra especialmente no antagonismo entre grupos humanos, divergentes não só quanto a interesses mas devido a sua existência em si, em função da identidade coletiva dos grupos em confronto. É claro que o marxismo também atenta para os antagonismos entre grupos humanos, os de classe principalmente, porém o paradigma schmittiano possui uma dimensão mais existencial e puramente política (na visão marxista os antagonismos humanos estão subordinados as contradições do processo econômico, como aquela entre forças produtivas e modo de produção).

"O outro se torna meu inimigo quando aquilo que ele é representa para mim a negação daquilo que eu sou, daí a possibilidade de combatê-lo para a preservação de minha forma de existência coletiva." (Bernardo Ferreira, ibid. pg. 87)

Para além dos antagonismos de classe e até mesmo das discordâncias ideológicas inter-partidárias, o conflito entre identidades étnicas radicalmente diferentes ou a tensão inter-civilizacional constituem exemplos mais substanciais. Atualmente, é muito claro que no Oriente Médio (e em países mulçumanos no geral, da África até a Ásia) o desenvolvimento de "grupos radicais" está ligado a rejeição dos valores e estilo de vida moderno-ocidentais (demo-liberalismo, hedonismo fugaz, etc) e afirmação da própria identidade por parte de membros desses povos.