quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A visita de Yoani Sanchéz e a esquerda oportunista


A visita da blogueira cubana Yoani Sanchéz tem causado grande polêmica no cenário político brasileiro. A grande mídia tem tratado a mesma com louvores e como a principal dissidente cubana. Setores da esquerda, por sua vez, expõem incansavelmente as diversas incongruências do discurso da cubana, assim como seus patrões/financiadores (existe material abundante a respeito, mas para citar um exemplo, que me eu lembre o primeiro numa sucessão de desmascaramentos, é fato dela ter sido fotografada usando Wi-Fi de um hotel internacional justamente na época em que ela declarava sua “pobreza” e falta de acesso a internet, tendo que enviar os “posts” por SMS).

Apesar desses esforços, existe uma “outra esquerda” que defende Yoani Sanchéz. Essa outra esquerda pode ser chamada de "esquerdista" no sentido usado por Lenin, esquerdismo como doença infantil. Uma boa definição de esquerdismo é o ato de colocar princípios ideológicos acima de imperativos políticos.  No dia de hoje, um quadro do PSTU que reside no Cairo e dispõe de espaço em grandes meios de comunicação como a Folha para escrever a favor dos mercenários sírios, Aldo Cordeiro Sauda,  nos deu um exemplo lançando a seguinte nota em uma rede social:


“Há uma turba violenta, formado por stalinistas raivosos, que tem atacado a blogueira e ativista Yoani Sanchez no Brasil. Estes cães de guarda da burocracia restaurancionista de Castro em nada servem ao legado da Revolução Cubana.
São imbecis atacando uma ativista que clama por democracia em um país capitalista (sim, em Cuba o capitalismo foi restaurado) controlado por uma ditadura stalinista de direita.
Estes animais em nada representam a gloriosa revolução cubana e suas grandes conquistas - cuja burocracia de castro, que a turba tanto venera, tem atacado.”

Como podem ver, para o nosso marxista, dito adepto do “materialismo histórico”, é tudo muito simples. Cuba é uma “ditadura burocrática” que já restaurou o capitalismo e, portanto, a “ativista que clama por democracia” deve ser apoiada – os que se opõem são uma “turba violenta” formada por “stalinistas raivosos”. O Sr. Cordeiro não se importa se Yoani recebe milhares de dólares do exterior, se seu blog é estranhamente traduzido para 15 línguas ou se o mesmo é endossado pelo Estado norte-americano (fatores semelhantes não o impedem de apoiar os rebeldes sírios). E apesar de não se importar com isso, não se importar com o fato de Yoani ser contra a Revolução Cubana, ele termina seu pequeno texto se referindo as “conquistas gloriosas da Revolução”. Ora, mas será que o mentecapto imagina que Yoani apóia, de fato, essas conquistas? Para o Sr. Cordeiro não existe contradição entre uma ativista que reconhece a reivindicação do imperialismo de receber de volta suas propriedades e as “conquistas da Revolução”, somente entre estas e a “burocracia de Castro”, o mesmo Castro que liderou e dirigiu essa revolução.

O que Sr. Cordeiro e seu trotskismo nos oferecem não é uma análise concreta da situação concreta e sim o ladrar em nome de consignas abstratas sobre “democracia e liberdade”, ignorando completamente todos os interesses em jogo. Marxistas como Lenin são extremamente felizes ao declarar que não existe “democracia e liberdade” fora da história, quer dizer, como “realidades espirituais puras” independentes da realidade concreta. “Democracia” para Yoani é a supressão das assembléias populares, das organizações de massa e das já ameaçadas conquistas sociais da revolução em prol da instauração do pluripartidarismo burguês, do mercado livre e da restituição das propriedades norte-americanas. Apesar deste fato, o número de canalhas que se dizem marxistas é tão grande que, nessa mesma nota, uma mulher identificada como Gabriela “Guarani-Kaioá” Hipólito comentou respondendo a uma voz isolada da razoabilidade:


“...se quer discutir conosco, nós os trotskistas (incluindo o Aldo) tem que debater a realidade concreta, não apenas achar que falar de morenismo é atacar alguém.
(...)
Sobre a tal figura, não faço a mínima ideia de quem ela seja realmente e a quem represente. Porém há um ponto concreto, o sistema antidemocrático, obsoleto e repressor de Cuba (Além de tudo o que o Aldo falou acima) deve sim ser questionado. E não com uma faixa escrita que nenhuma criança passa fome em Cuba, por que espero, sinceramente que ninguém aqui ache que socialismo é isso.”


É esse o “marxismo” do PSTU: “antidemocrático”, “obsoleto” e “repressor” são categorias concretas no mundo dessa gente. É lastimável que esses “militantes” leiam as cartilhas da CIA ao invés de obras muito adequadas como “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky” ou "Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo".  Não existe “democracia no geral” e não existe Estado que não seja repressor – e a repressão é duplamente necessária em um Estado numa situação de cerco como é o caso de Cuba. Entre os comentários são abundantes os exemplos de pequeno-burgueses choramingões que são de “esquerda” e ignoram completamente o critério de classe em prol da “democracia” e da “liberdade”. Uma inclusive fala do “horror das ditaduras comunistas”, ignoram relações de produção e desenvolvimento das forças produtivas. “A ‘democracia pura’ é uma mentira de liberal para enganar os operários”(Lenin, “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky").  Neste caso, o Sr. Cordeiro está repleto de argumentos para nos provar que Cuba restaurou o capitalismo.  Talvez reconhecendo internamente a verdade implacável sobre o caráter de Yoani Sanchéz, o trotskista tenta convencer por outra via e nos presenteia com dados sobre as alterações no sistema econômico cubano.

....

Mas isso justifica apoiar uma agente da CIA?

Do ponto de vista do Sr. Cordeiro, i.e., do ponto de vista da ideologia burguesa (conforme será demonstrado), sim. Segundo ele, numa postagem mais recente, a tal “turba stalinista” está a assassinar a Revolução Cubana por atacar o “direito sagrado a liberdade de expressão” da crítica do “regime ditatorial”. Certamente as cartilhas do PSTU-CIA somadas ao seu curso de Relações Internacionais numa das universidades mais caras do país não permitiram que ele lesse Lenin uma vez sequer. Mais uma vez ele massacra a realidade concreta em prol de uma abstração nascida nos tempos da revolução burguesa.  Em contrapartida, o Sr. Cordeiro não parece usar seus espaços, seja em seu blog, nas mídias do PSTU ou na Folha, para defender pessoas os cinco de Cuba ou Bradley Manning. Não é muito diferente da colunista da Carta Capital que se aproveitou do momento para difundir seu “anti-comunismo light”, desmerecer as evidências contra a Yoani e dizer que quem a faz crescer é a “repressão do regime”(que até agora não a impediu), demonstrando total ignorância sobre qual vendo sendo a abordagem norte-americana com Cuba desde os anos 90 (financiar e incentivar uma oposição pacifica que corroa o regime desde dentro, ao invés do velho terrorismo à Posada Carriles, Alpha 66 e as tentativas de assassinato de dirigentes).

Paralelos a parte, é realmente muito engraçado que o intelectual orgânico do imperialismo pose de defensor da Revolução Cubana. Se os “stalinistas” são responsáveis por tentar assassinar a Revolução Cubana, ele é o que? Ele que defende uma inimiga declarada da Revolução Cubana se escondendo atrás de embustes como “liberdade de expressão”? Isso é típico de trotskistas (que já apoiariam Yeltsin como “novo Trotsky”), porém é mais ainda dessa abominação da qual ele e o PSTU LIT-QI são adeptos, o morenismo. O morenismo é a corrente que em nome de suas aberrações teóricas acerca de “democracia e liberdade” aplaudiu a devastação social que se abateu sobre os ex-membros da União Soviética.

Os erros de Trotsky se repetem em seus seguidores, seja em termos de colaboração com o imperialismo ou na psicologia dos mesmos. Quando Lenin disse que “Trotsky só é fiel a si mesmo” ou apontou a total irreflexão das posições do mesmo na polêmica dos sindicatos, se referia a um traço psicológico bem descrito por Deutscher. O intelecto de Trotsky, realmente de muito potente e refinado, era muito bom em encontrar problemas, independente das questões políticas mais práticas (isso se verifica em toda a sua história: Trotsky contra o “pequeno Bonaparte” Lenin, Trotsky liquidacionista, Trotsky da oposição de esquerda, etc). É exatamente o que faz o Sr. Cordeiro. Ele, ao contrário dos ignorantes, sabe que “Cuba não é socialista” e, revoltado com o erro desses que não sabem que Cuba é na verdade capitalista, defende Yoani Sanchéz sem levar em conta as forças políticas por trás da mesma (eis a base psicológica do esquerdismo). É preferível fazer frente com a reação do que "ceder nos princípios". Apesar disto, eu diria que talvez essa posição do Sr. Cordeiro não se reduzisse a mera arrogância intelectual desconectada da realidade, e sim de uma ligação mais concreta com as forças do globalismo (afinal, seja na Síria, na Líbia ou em Cuba, ele não perde uma oportunidade fazer frente com o mesmo). Sendo o acompanhante de Sara Al Suri em sua turnê pelo Brasil, é normal que ele tenha afinidade com o tipo.

A questão aqui não é a diferença teórica entre socialismo e capitalismo, e sim o antagonismo concreto entre duas nações, a diferença entre ser e não ser agente da CIA. Quanto ao critério de classe, as forças que financiam Yoani e as quais ela empresta sua voz já foram bem expostas. Fato é que fica demonstrado que essa “outra esquerda” não pensa nem em termos de classe e nem de pragmatismo político.

O PSTU até agora não disse nada sobre a visita de Yoani e é notável que tal silêncio não se verificou na prontidão do partido em defender a agente da CIA Sara Al Suri. Recomendo as pessoas de boa féque se informem sobre Yoani Sanchéz e de preferência adquiram algum conhecimento das estratégias norte-americanas para não cometerem erros inocentes como de Cynara Menezes da Carta Capital, que aparentemente prefere usar a imaginação ao invés de falar da realidade. O Sr. deputado Jean Wyllys, junto com o sr. Suplicy, são outros que falam do "direito de Yoani se defender" - ela é apoiada pelos principais conglomerados de mídia e está sendo "reprimida"?! É necessário diferenciar as contradição não-antagônicas, que se resolvem na conversa, de contradições antagônicas (aquelas que temos com a CIA e os EUA). Para não perceber estas realidades, é preciso ser, como disse Lenin (A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky), “um servidor consciente da burguesia ou um homem totalmente morto politicamente, que não vê a vida viva por trás dos poeirentos livros burgueses, impregnado até à medula de preconceitos democrático-burgueses, pelo que se tornou objetivamente um servidor da burguesia.” 

(nota posterior: me pergunto como esses trotskistas lidariam com a violência da Revolução Russa, se eles sabem o que "Trotsky fez"[figura de linguagem] de "horrível". Isso certamente abordarei em outros texto, que infelizmente veio adiando há algum tempo)

Um comentário:

  1. O partido se pronunciou - http://www.pstu.org.br/internacional_materia.asp?id=14941&ida=20

    ResponderExcluir