sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Todo conceito político é um conceito polêmico



“Todos os conceitos políticos se originam de uma contraposição concreta, de política externa ou interna, e são,  sem essas contraposições,  apenas abstrações equívocas, sem sentido.  Não é aceitável, portanto, abstrair da situação concreta, isto é, do antagonismo concreto.  A consideração teórica  das coisas políticas tão pouco pode desconsiderar esse ponto.  Todo conceito político é um conceito polêmico. Ele tem em vista um inimigo político e está determinado em seu nível espiritual, sua força intelectual e seu significado histórico pela força de seu inimigo. Palavras como soberania, liberdade, estado de direito e democracia adquirem seu sentido preciso através de uma antítese concreta. Em uma discussão científica, ao menos isso deveria ser levado em conta.”

Carl Schmitt, citado por Bernardo Ferreira em OS INTELECTUAIS DO ANTILIBERALISMO, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010, pg. 74
Carl Schmitt foi um jurista alemão antiliberal com vasta obra na filosofia política. Seu pensamento se tem como base o par amigo-inimigo, o que já é ir na contramão da ideia de harmonia liberal ("não existem inimigos, somente competidores"). Afinal seria possível imaginar as ideias da Revolução Francesa sem o Antigo o Regime? Não só as ideias, mas mal podemos conceber instituições sem levar em conta os antagonismos concretos. Olhem para Roma, ou olhem para a Atenas, não haveria solo fértil para triunfar um Sólon sem os rígidos conflitos que que abatiam a cidade, com oligarcas e democratas lutando pela hegemonia. 

O pensamento marxista também enfatiza que ideias e instituições nascem de necessidades históricas, das condições objetivas e mais especificamente de contradições (apesar de boa parte doa "marxistas" de hoje e ontem terem penhorado isso em prol de uma visão utópica de "sociedade ideal"), porém é importante ressaltar a diferença que Schmitt se concentra especialmente no antagonismo entre grupos humanos, divergentes não só quanto a interesses mas devido a sua existência em si, em função da identidade coletiva dos grupos em confronto. É claro que o marxismo também atenta para os antagonismos entre grupos humanos, os de classe principalmente, porém o paradigma schmittiano possui uma dimensão mais existencial e puramente política (na visão marxista os antagonismos humanos estão subordinados as contradições do processo econômico, como aquela entre forças produtivas e modo de produção).

"O outro se torna meu inimigo quando aquilo que ele é representa para mim a negação daquilo que eu sou, daí a possibilidade de combatê-lo para a preservação de minha forma de existência coletiva." (Bernardo Ferreira, ibid. pg. 87)

Para além dos antagonismos de classe e até mesmo das discordâncias ideológicas inter-partidárias, o conflito entre identidades étnicas radicalmente diferentes ou a tensão inter-civilizacional constituem exemplos mais substanciais. Atualmente, é muito claro que no Oriente Médio (e em países mulçumanos no geral, da África até a Ásia) o desenvolvimento de "grupos radicais" está ligado a rejeição dos valores e estilo de vida moderno-ocidentais (demo-liberalismo, hedonismo fugaz, etc) e afirmação da própria identidade por parte de membros desses povos.


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