sábado, 20 de abril de 2013

Bakunin sobre a nacionalidade


"Eu me sinto sempre o patriota de todas as pátrias oprimidas (...). A Nacionalidade é um fato histórico e local que, como todos os fatos reais e inofensivos, tem todo o direito de reclamar aceitação geral. Cada Povo, como cada pessoa, é involuntariamente aquilo que é e, portanto, tem o direito de ser si mesmo. A Nacionalidade não é um princípio; é um fato legítimo, tanto como a individualidade. Cada Nacionalidade, grande ou pequena, possui o direito incontestável de ser ela mesma, de viver segundo sua própria natureza. Esse direito é simplesmente um colorário do princípio geral da liberdade." - Mikhail Bakunin*


*Citado em Alfredo M. Bonanno in Anarchism and the National Liberation Struggle, pp. 19-20

sábado, 13 de abril de 2013

Vitória norte-coreana: EUA cedem novamente

Washington dispõe-se a retomar ajuda a Coreia do Norte se o país "realizar ações importantes" para abandonar seu projeto nuclear, disse o secretário de Estado dos EUA, John Kerry (via RT). Em viagem pela Coreia do Sul e com Pequim na agenda, o diplomata declarou que seu país está disposto a voltar a mesa de negociação.

"Seguiremos tentando convencer a Coreia do Norte a tomar a decisão correta. Se o fizer, estaremos dispostos a cumprir com nossas obrigações" foi o que disse John Kerry. As "obrigações"  são as estabelecidas na declaração de 2005, quando Pyongyang recebeu a garantia  de ajuda energética em troca da redução gradual de seu programa nuclear. Com o descumprimento dessas obrigações, a República Popular retomou seu programa. Após recuar em suas provocações aéreas, os Estados Unidos cedem novamente com essa declaração. Não é a primeira vez que isso ocorre. O "Agreed Framework" de 1994 e a declaração de 2005 foram conquistados por vias parecidas - primeiro os Estados Unidos tentam sufocar a  Coreia com sanções, mas depois o fantasma atômico os faz negociar. É provável que a preocupação norte-americana tenha crescido com a ultima conferência do Comitê Central do Partido do Trabalho, onde se deu ênfase na ideia de que o projeto atômico não deve servir de moeda de troca com o imperialismo.

O que alguns chamaram de "ameaças insignificantes" surtiram um efeito devastador na política norte-americana, que mudou completamente o tom. O meu último artigo sobre o fato dessas "ameaças" terem dissuadido os EUA de seguir com suas provocações foi recebido com um ódio irracional e violento por algumas pessoas. Com linguagem adequada a desentendimentos ginasiais, escandalosamente diziam que "o gordinho [líder norte-coreano] só está ameaçando", que "se os EUA quiserem, não deixarão um coreano vivo sequer". Me acusaram de ter invertido a realidade, mas os fatos falam a meu favor - pelo jeito a "vontade" dos EUA é ceder a "provocações vazias". Diz o provérbio legal romano: "Allegatio contra factum non est admittenda" , uma alegação contrária aos fatos não deve ser ouvida.

"A intenção norte-coreana é bem clara: forçar os EUA, prostrado arrogante em seu pedestal cuspindo sanções, a sentar na mesa de negociações. Kim Jong-il demonstrou genialidade diplomática ao forçar com seu projeto nuclear os americanos a negociarem num momento em que eles esperavam sufocar completamente a República Popular. Kim Jong-un está emulando a astúcia diplomática de seu antecessor, forçando a negociação está fazendo o melhor para a República Popular que é combater as sanções. Não é de forma alguma "suicídio", é sim pragmaticamente a melhor opção frente as provocações militares e sanções econômicas - sem ferro não há pão." ("O que a Coreia do Norte está fazendo?", 1/04/2013)

Kim Jong Il iniciou o projeto nuclear com fins diplomáticos e de dissuasão. Tal estratégia fez Washington ceder diversas vezes (1994, 2005, 2013) e trouxe uma série de benefícios ao país (além da segurança externa; a ajuda energética, por exemplo). A Coreia ofereceu, diversas vezes, o seu projeto nuclear em troca de um tratado de paz (mais recentemente o fez em 2010, 2011 e 2012). Sua exigência segue sendo a mesma: um tratado de paz e a retirada das tropas norte-americanas do sul da península.  Kim Jong Un repetiu com sucesso a coragem de seu antecessor e novamente os Estados Unidos vão de uma postura agressiva para um tom mais conciliador. A história se repete e confirma o acerto da política norte-coreana: essa é a única abordagem capaz de forçar os Estados Unidos a sentar na mesa de negociação. provando errados aqueles que pensam que a potência pode fazer o que bem entende em sua política externa. A República Popular vem há uma década oferecendo seu programa nuclear em troca da paz; agora, depois do  Iraque e da Líbia, pode ser tarde demais.

Quer entender melhor a situação? Leia: http://www.realismopolitico.blogspot.com.br/2013/04/o-que-coreia-do-norte-esta-fazendo.html

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Líder norte-coreano faz EUA recuarem


O líder norte-coreano Kim Jong Un conquistou uma vitória em sua luta contra os Estados Unidos neste momento de tensão na Península Coreana. Após fazer uma demonstração de força, a Casa Branca recuou em sua postura agressiva temendo que isto poderia "inadvertidamente" desencadear uma crise ainda mais profunda, segundo o "The Wall Street Journal".  Retirando os aviões F-22, B-2 e os temidos B-52 (capazes de transportar armas atômicas) dos céus coreanos, os EUA voltaram atrás em seu roteiro pré-estabelecido de exercícios militares na Coreia do Sul, mostrando a eficiência da estratégia norte-coreana em sua capacidade de dissuadir a grande potência. É certo que os avisos da Coreia do Norte ecoaram em Washington e é provável que tal postura tenha sido influenciada pelos recentes encontros do Comitê Central do PTC (Partidos dos Trabalhadores da Coreia), onde se deu ênfase em avançar ainda mais o projeto atômico.

Figura reverenciada pela população em geral, Kim Jong Un certamente se reafirmou como líder frente os alto dirigentes de seu país. Vítima de dúvidas no exterior devido sua pouca idade e subida ao poder aparentemente frágil, Kim Jong Un frustrou as expectativas daqueles que esperavam um líder fraco ou reformador. Invulnerável perante a pressão americana, Kim Jong Un mostrou a força da própria liderança e mostrou sua "vocação de sangue", já que seu avô, Kim Il Sung, combateu a invasão japonesa desde os 15 anos de idade, também muito jovem. Apesar da abordagem norte-coreana ter sido correta, em muitos aspectos Kim Jong Un somente emulou o gênio diplomático de seu antecessor, Kim Jong Il, que no passado forçou os EUA a mesa de negociação através de sua política nuclear. Esse acontecimento derruba o mito da "invencibilidade" e "liberdade total" da política externa norte-americana, assim como refuta as mentes simples que falaram a "loucura norte-coreana" ou que zombaram das "ameaças" de Kim Jong Un como provocações infantis. A política norte-coreana de louca não tem nada, é muito racional, responde a imperativos pragmáticos e é um movimento calculado.

As recentes tensões na península coreana vem preocupando o mundo com o fantasma de um novo embate militar. O conflito vem desde a década de 50' e se deve a ocupação militar norte-americana na Coreia do Sul, necessária para a manutenção dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA na região. Do outro lado, a Coreia do Norte é governada por um regime socialista que em sua fundação tomou uma série medidas de caráter popular, como a reforma agrária, a nacionalização de propriedades dos antigos invasores japoneses e a reorganização da vida política em linhas democráticas através das forças que libertaram o país e de organizações de massa como sindicatos. No entanto, o país passou por duras dificuldades por causa da guerra e sanções, com uma disciplina rígida que se mantém graças a mobilização de massas e a direção do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Se o país fosse dividido e o povo desorganizado, sem esse sistema político e tendo que se basear exclusivamente na repressão militar, o regime provavelmente não sobreviveria a estas dificuldades.

Essa é certamente uma ótima notícia para os amantes da paz de todo o mundo e todos aqueles que temiam a explosão de um novo conflito militar. É claro que isso não é a paz, mas se os Estados Unidos realmente querem a paz, então deveriam retirar suas tropas da península e acabar essa guera que já vem sendo travada há mais de meio século.

Quer mais? Leia: http://www.realismopolitico.blogspot.com.br/2013/04/o-que-coreia-do-norte-esta-fazendo.html

(Revisado 15/04/2013)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Arte Musical na Coreia do Norte - PARTE III

PARTE III -  SOBRE O CARÁTER DA MÚSICA JUCHEANA

No último artigo da série sobre a arte musical norte-coreana  tratei especificamente o conteúdo político revolucionário da música jucheana. Neste artigo inevitavelmente voltarei a esta questão (o que certamente farei de novo), especialmente devido a tensão recente na península coreana.

Já vimos que assim chamada música jucheana deve ter um conteúdo revolucionário. No entanto, este conteúdo revolucionário não é por si só causa suficiente para caracterizar a música jucheana. Kim Jong Il  coloca a questão do que ele chama de "características da linguagem musical" e afirma que a música jucheana tem "forma popular" (KIM, Jong Il. “Arte Musical” , 17 de julho de 1991. Kim Jong Il – OBRAS ESCOGIDAS, Tomo XI Ediciones en Lenguas Estranjeras, Pyongyang , Coreia, 2006. Pg. 380). Quer dizer, ela deve "se ajustar a sentimentos e emoções estéticas das massas populares" e possuir uma "forma popular suscetível de ser compreendida e desfrutadas pelas mesmas" (IBID.). Esta forma estaria ligada a seu próprio caráter revolucionário, até porque, como dissemos no artigo anterior, sua missão é passar uma determinada mensagem para as massas. Se um signo não é suscetível de ser compreendido pelas massas, então ele não desempenha uma função revolucionária.

"Se uma peça musical apreciam só um punhado de profissionais e é incompreensível as vastas massas populares trabalhadoras, não serve para nada. Se a música de nossa época tivesse de desenvolvido principalmente por profissionais sem ter em consideração a compreensão das amplas massas, teria sido repudiada pelo povo e não desempenharia nenhum papel no processo revolucionário e construtivo.

Para que a música tenha uma forma perfeitamente popular, deve ser compreensível para todos, possuir um caráter massivo." (IBID. pg. 382)

Isso não significa, no entanto, que a música deve ser pobre ou de baixa qualidade artística, pelo contrário, "tem por premissa a sublime qualidade artística". Os norte-coreanos valorizam muito a técnica e suas óperas são um exemplo de refinamento (falarei delas em outra ocasião).

"A forma dos trabalhos literários e artísticos deve ser boa também, mas seu conteúdo ideológico é mais importante." ((KIM, Jong Il. “LET US COMPOSE MORE MUSIC WICH WILL CONTRIBUTE TO EDUCATION IN THE PARTY MONOLITHIC IDEOLOGY”, discursos a oficiais do campo da literatura , da arte e compositores, 7 de junho de 1967. Kim Jong Il – SELECTED WORKS  Tomo I Foreign Languages Publishing House, Pyongyang , Coreia, 1992. Pg. 196)

Essas preocupações com a forma da música estão diretamente relacionadas a seu conteúdo revolucionário, pois "esta arte desempenha o papel de educar as massas populares pela via revolucionária e incitar-las a por-se em pé de guerra". Nesse atual momento de tensão na península coreana, tenho falado constantemente da ignorância daqueles que pensam naquele país predomina um regime autoritário anti-político. Esse regime, independentemente do que pensamos do mesmo, é baseado na mobilização das massas e não em um verticalismo burocrático, onde funcionários e militares saem distribuindo ordens. Cada bairro e cada fábrica tem um comitê, uma assembleia popular, e em cada comitê uma célula do Partido. O regime é baseado no consenso e no consentimento, esses reforçados pela rede de comunicação. Não se trata do jornal estampar uma notícia ou uma ideia - essa notícia e essa ideia serão reforçadas em reuniões.  O cientista política norte-americano Harold D. Lasswell (1902-1978) estabelece que o processo de comunicação cumpre três funções principais na sociedade: a vigilância do meio (prevenção contra o que pode afetar o sistema de valores dominante), estabelecimento de relações dos componentes da sociedade para produzir uma resposta ao meio (o jornal que organiza) e transmissão da herança social. Lazarsfeld e Merton, observando a sociedade norte-americana, acrescentarão uma quarta função que chamam de "entretenimento" e falarão da comunicação desempenhando uma "disfunção narcotizante" que gera apatia política das grandes massas como observado  (o que faz parte da própria manutenção e funcionalidade da sociedade). Na Coreia, a comunicação é uma politização permanente (o que está relacionado com o forte coletivismo - "a política é tudo"). É aqui que entra o papel revolucionário da música. No atual momento, uma das músicas mais tocadas na RPDC é "Líder, só nos dê sua ordem", uma música forte, de estilo parecido com as marchas soviéticas e que fala sobre a luta pela reunificação do país. O problema é muitas pessoas não compreendem o que é hegemonia e pensam que os coreanos se relacionam com o regime como eles mesmos (ocidentais de países liberais) se relacionariam, não entendem que uma música como esta diz muito para os norte-coreanos, fala de acordo com a forma de pensar dos mesmos.

"A música Líder, só nos dê sua ordem mexe com o sangue das pessoas e faz com que eles cerrem seus pulsos involuntariamente. Essa música canta emocionalmente a justeza da linha revolucionária de simultaneamente continuar desenvolvendo a economia e as defesas que foi proposta pelo grande líder. Ela habilmente contém essa melodia agitada, a vontade firme e a energia de nosso povo para aniquilar qualquer inimigo de um só golpe se o líder somente nós der sua ordem." (IBID. pg 198)



segunda-feira, 1 de abril de 2013

O que a Coreia do Norte está fazendo?

Manifestação anti-imperialista em Pyongyang, 29 de Março de 2013
Os recentes acontecimentos da península coreana causaram grande agitação no mundo. A ameaça de uma guerra paira no ar e muito se fala sobre o assunto. O problema é que, nesses tempos de rede, fala-se muito sobre o que não sabe. Além de um setor da mídia que pinta a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) como uma "inimiga da paz", não faltam playboys pregando o massacre do povo coreano em redes sociais. Ironicamente, os mesmos que pregam a destruição da RPDC são os que mais falam da "fome na Coreia", como se as bombas norte-americanas matassem a fome (o que não é muito diferente da lógica dos inimigos da RPDC , como exemplifica de Madeleine Albright dizendo que "as 500 mil crianças mortas pelo bloqueio ao Iraque valeram a pena" - quantas crianças coreanas devem morrer para satisfazer o Moloch imperialista?).

Bombas não alimentam pessoas....É o que muitos deles dizem, "a Coreia do Norte ao invés de investir em comida fica gastando dinheiro em armas"! Muito simples, muito fácil raciocinar assim, como se uma coisa excluísse a outra, como se a RPDC não prezasse pelo bem-estar de seu próprio povo e a Coreia do Sul fizesse bem em deixar seu tesouro a disposição de especuladores (que saquearam o país em 1998 - talvez devessem "investir esse dinheiro em coisas melhores", acabar com as favelas de Seul por exemplo). Na Coreia, é válida a máxima de que sem ferro, não há pão. Os Estados Unidos criaram uma situação em que a soberania da RPDC está sob constante ameaça. Essas duas coisas, "ferro e pão", não só não se excluem como se complementam, pois os projetos militares norte-coreanos desempenharam até então um papel estratégico capaz de colocar os EUA na mesa de negociações e graças a isto já conseguiu inclusive uma série de benefícios materiais (o chamado "Agreed Framework", por exemplo).

É justamente ai que as mentes sãs devem parar, no PROBLEMA ESTRATÉGICO. O que a RPDC está fazendo? Dizer que o país está tomando uma "posição agressiva e belicista" sob os auspícios de um ditador louco é um absurdo.Gritam as páginas do jornal: "COREIA DO NORTE SUSPENDE ARMÍSTICIO". O problema é que o armísticio nunca foi respeitado por Washington e Seul. O parágrafo 60 do armistício estabelecia que todas as tropas estrangeiras deveriam se retirar da península e o parágrafo 13 bania a introdução de planos operacionais por parte de outros países. Hoje a Coreia do Sul está lotada de bases americanas com um contingente de 28,5 mil homens e anualmente ocorrem exercícios militares conjuntos das tropas norte-americanas e sul-coreanas, o que não é nada menos que uma provocação militar em larga escala repetida anualmente. Diversas foram as violações dos Estados Unidos. A RPDC, por sua vez, ofereceu diversas propostas de paz a seu inimigo. Os exemplos de tentativas da RPDC de acabar com o armísticio e assinar um tratado de paz vem desde os anos '70. Mais recentemente, houveram tentativas em 2010 ("North Korea on Monday indicated it would not give up its nuclear weapons until the U.S. signed a new peace treaty."; 60 anos da Guerra da Coreia), em 2011 e também no ano passado ("North Korea Calls for Unconditional Peace Treaty With U.S."). Na verdade, apesar da maior parte da mídia não ter deixado claro, a exigência da RPDC continua sendo a mesma: um tratado de paz formal e remoção das tropas norte-americanas do sul da península.

Por que os Estados Unidos, então, não acabam com essa guerra e assinam um tratado de paz? Armas nucleares? A Coreia deixou bem claro que abandonaria seus projetos em caso de um tratado de paz (que colocaram como condição), até porque sem a ameaça norte-americana estas já não seriam necessárias, não haveria guerra. Por que os Estados Unidos não assinam um tratado que reconheceria o direito da RPDC a existir como Estado, que levaria ao desarmamento, a pacificação e a reunificação do país? A presença norte-americana é o que vem frustrando todas as tentativas de aproximação das "duas Coreias" e que impede que a Coreia do Sul tenha uma proposta consistente de reunificação (o contrário da proposta norte-coreana, que implica na criação de uma federação de dois estados). Alguns dirão que isso é uma "blefe coreano" para que eles possam invadir a Coreia do Sul sem a presença norte-americana - não é como se os norte-americanos devessem ser a polícia do mudo, porém nada os impediria de intervir no conflito caso isso acontecesse. Um tratado de paz poderia inclusive levar ao fim da existência da RPDC enquanto Estado (os que falam das "maravilhas do capitalismo" deveriam ser os primeiros a concordar com isso). Repito, então, a pergunta: por que os Estados Unidos não assinam um tratado de paz? 

Podemos citar entre as razões: a indústria de guerra, os rendimentos da ocupação (sim, a Coreia do Sul é quem arca com os custos), a salvaguarda dos interesses econômicos norte-americanos e, principalmente, os interesses geopolíticos dos EUA. Em primeiro lugar, a Coreia do Sul é fundamental no que diz respeito a posição dos Estados Unidos em relação a China. Em segundo lugar, uma Coreia reunificada, forte e independente seria por si só um problema para a geopolítica estado-unidense na Ásia.

É com esses fatos em mente que devemos avaliar a atitude norte-coreana neste momento. A Coreia não está tomando uma atitude desesperada. É difícil estourar a guerra, a presença geopolítica da China e da Rússia dificulta as coisas para os EUA (mesmo que os dois primeiros provavelmente não intervissem diretamente) e este está degastado por guerras recentes (Obama tem uma imagem pública a preservar, até por isso tem uma predileção por Drones; uma guerra provavelmente seria conduzida com os americanos no ar e as tropas títeres sul-coreanas na terra). A intenção norte-coreana é bem clara: forçar os EUA, prostrado arrogante em seu pedestal cuspindo sanções, a sentar na mesa de negociações. Kim Jong-il demonstrou genialidade diplomática ao forçar com seu projeto nuclear os americanos a negociarem num momento em que eles esperavam sufocar completamente a República Popular. Kim Jong-un está emulando a astúcia diplomática de seu antecessor, forçando a negociação está fazendo o melhor para a República Popular que é combater as sanções. Não é de forma alguma "suicídio", é sim pragmaticamente a melhor opção frente as provocações militares e sanções econômicas - sem ferro não há pão. É graças as suas armas que a República consegue combater a fome, a escassez, os efeitos sombrios das sanções e que a República não se depara com os efeitos ainda mais sombrios do massacre bélico, da invasão militar e da total subjugação. Os mísseis são alto-falantes que permitem que a República fale com a potência militar norte-americana.

Lembrem-se de que "armísticio" não é paz e a guerra já vem acontecendo nos ultimos 60 anos. Esse é um ato de guerra calculado em resposta aos atos de guerra estado-unidenses. Se o inesperado acontecer e o confronto direto estourar, os coreanos estão prontos. Estão enganados aqueles que, iludidos com uma noção inocente de "ditadura", imaginam norte-coreanos presos em suas casas, tristes e famélicos, "sofrendo o fardo do regime esperando a libertação". Não existe na Coreia um autoritarismo anti-político. Esse é um regime baseado nas massas, não na repressão política - depende mais do consenso e do consentimento do que da coação física. Em cada fábrica e em cada bairro existe um comitê popular, e em cada comitê existe uma célula do Partido. Todos participam da vida política, em organizações de massa e são leais ao líder. A memória da agressão norte-americana é fresca. O regime é baseado na mobilização popular e todos estão preparados para um esforço bélico - os jovens sabem manejar. Muitos desses passaram fome durante a "Árdua Marcha" e isso só aumenta o seu orgulho, sua vontade de combater. Certos ou errados em sua lealdade ao regime, os coreanos combaterão fanaticamente até a morte.

O que sabemos até agora é que Kim Jong-un calou os que falaram de sua "fraqueza" ou "tendência ao abrandamento". A Conferência do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia que está ocorrendo nesse momento vem dando sinais numa ênfase maior na ideia de que o programa nuclear não é moeda de troca com o imperialismo, apontando para o sentido da maior radicalização.

Operários da Fábrica Têxtil Kim Jong Suk (que tive a oportunidade de visitar) em reunião anti-imperialista.


REVISTADO 15/04/2013