sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Arte Musical na Coreia do Norte - PARTE III

PARTE III -  SOBRE O CARÁTER DA MÚSICA JUCHEANA

No último artigo da série sobre a arte musical norte-coreana  tratei especificamente o conteúdo político revolucionário da música jucheana. Neste artigo inevitavelmente voltarei a esta questão (o que certamente farei de novo), especialmente devido a tensão recente na península coreana.

Já vimos que assim chamada música jucheana deve ter um conteúdo revolucionário. No entanto, este conteúdo revolucionário não é por si só causa suficiente para caracterizar a música jucheana. Kim Jong Il  coloca a questão do que ele chama de "características da linguagem musical" e afirma que a música jucheana tem "forma popular" (KIM, Jong Il. “Arte Musical” , 17 de julho de 1991. Kim Jong Il – OBRAS ESCOGIDAS, Tomo XI Ediciones en Lenguas Estranjeras, Pyongyang , Coreia, 2006. Pg. 380). Quer dizer, ela deve "se ajustar a sentimentos e emoções estéticas das massas populares" e possuir uma "forma popular suscetível de ser compreendida e desfrutadas pelas mesmas" (IBID.). Esta forma estaria ligada a seu próprio caráter revolucionário, até porque, como dissemos no artigo anterior, sua missão é passar uma determinada mensagem para as massas. Se um signo não é suscetível de ser compreendido pelas massas, então ele não desempenha uma função revolucionária.

"Se uma peça musical apreciam só um punhado de profissionais e é incompreensível as vastas massas populares trabalhadoras, não serve para nada. Se a música de nossa época tivesse de desenvolvido principalmente por profissionais sem ter em consideração a compreensão das amplas massas, teria sido repudiada pelo povo e não desempenharia nenhum papel no processo revolucionário e construtivo.

Para que a música tenha uma forma perfeitamente popular, deve ser compreensível para todos, possuir um caráter massivo." (IBID. pg. 382)

Isso não significa, no entanto, que a música deve ser pobre ou de baixa qualidade artística, pelo contrário, "tem por premissa a sublime qualidade artística". Os norte-coreanos valorizam muito a técnica e suas óperas são um exemplo de refinamento (falarei delas em outra ocasião).

"A forma dos trabalhos literários e artísticos deve ser boa também, mas seu conteúdo ideológico é mais importante." ((KIM, Jong Il. “LET US COMPOSE MORE MUSIC WICH WILL CONTRIBUTE TO EDUCATION IN THE PARTY MONOLITHIC IDEOLOGY”, discursos a oficiais do campo da literatura , da arte e compositores, 7 de junho de 1967. Kim Jong Il – SELECTED WORKS  Tomo I Foreign Languages Publishing House, Pyongyang , Coreia, 1992. Pg. 196)

Essas preocupações com a forma da música estão diretamente relacionadas a seu conteúdo revolucionário, pois "esta arte desempenha o papel de educar as massas populares pela via revolucionária e incitar-las a por-se em pé de guerra". Nesse atual momento de tensão na península coreana, tenho falado constantemente da ignorância daqueles que pensam naquele país predomina um regime autoritário anti-político. Esse regime, independentemente do que pensamos do mesmo, é baseado na mobilização das massas e não em um verticalismo burocrático, onde funcionários e militares saem distribuindo ordens. Cada bairro e cada fábrica tem um comitê, uma assembleia popular, e em cada comitê uma célula do Partido. O regime é baseado no consenso e no consentimento, esses reforçados pela rede de comunicação. Não se trata do jornal estampar uma notícia ou uma ideia - essa notícia e essa ideia serão reforçadas em reuniões.  O cientista política norte-americano Harold D. Lasswell (1902-1978) estabelece que o processo de comunicação cumpre três funções principais na sociedade: a vigilância do meio (prevenção contra o que pode afetar o sistema de valores dominante), estabelecimento de relações dos componentes da sociedade para produzir uma resposta ao meio (o jornal que organiza) e transmissão da herança social. Lazarsfeld e Merton, observando a sociedade norte-americana, acrescentarão uma quarta função que chamam de "entretenimento" e falarão da comunicação desempenhando uma "disfunção narcotizante" que gera apatia política das grandes massas como observado  (o que faz parte da própria manutenção e funcionalidade da sociedade). Na Coreia, a comunicação é uma politização permanente (o que está relacionado com o forte coletivismo - "a política é tudo"). É aqui que entra o papel revolucionário da música. No atual momento, uma das músicas mais tocadas na RPDC é "Líder, só nos dê sua ordem", uma música forte, de estilo parecido com as marchas soviéticas e que fala sobre a luta pela reunificação do país. O problema é muitas pessoas não compreendem o que é hegemonia e pensam que os coreanos se relacionam com o regime como eles mesmos (ocidentais de países liberais) se relacionariam, não entendem que uma música como esta diz muito para os norte-coreanos, fala de acordo com a forma de pensar dos mesmos.

"A música Líder, só nos dê sua ordem mexe com o sangue das pessoas e faz com que eles cerrem seus pulsos involuntariamente. Essa música canta emocionalmente a justeza da linha revolucionária de simultaneamente continuar desenvolvendo a economia e as defesas que foi proposta pelo grande líder. Ela habilmente contém essa melodia agitada, a vontade firme e a energia de nosso povo para aniquilar qualquer inimigo de um só golpe se o líder somente nós der sua ordem." (IBID. pg 198)



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