segunda-feira, 1 de abril de 2013

O que a Coreia do Norte está fazendo?

Manifestação anti-imperialista em Pyongyang, 29 de Março de 2013
Os recentes acontecimentos da península coreana causaram grande agitação no mundo. A ameaça de uma guerra paira no ar e muito se fala sobre o assunto. O problema é que, nesses tempos de rede, fala-se muito sobre o que não sabe. Além de um setor da mídia que pinta a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) como uma "inimiga da paz", não faltam playboys pregando o massacre do povo coreano em redes sociais. Ironicamente, os mesmos que pregam a destruição da RPDC são os que mais falam da "fome na Coreia", como se as bombas norte-americanas matassem a fome (o que não é muito diferente da lógica dos inimigos da RPDC , como exemplifica de Madeleine Albright dizendo que "as 500 mil crianças mortas pelo bloqueio ao Iraque valeram a pena" - quantas crianças coreanas devem morrer para satisfazer o Moloch imperialista?).

Bombas não alimentam pessoas....É o que muitos deles dizem, "a Coreia do Norte ao invés de investir em comida fica gastando dinheiro em armas"! Muito simples, muito fácil raciocinar assim, como se uma coisa excluísse a outra, como se a RPDC não prezasse pelo bem-estar de seu próprio povo e a Coreia do Sul fizesse bem em deixar seu tesouro a disposição de especuladores (que saquearam o país em 1998 - talvez devessem "investir esse dinheiro em coisas melhores", acabar com as favelas de Seul por exemplo). Na Coreia, é válida a máxima de que sem ferro, não há pão. Os Estados Unidos criaram uma situação em que a soberania da RPDC está sob constante ameaça. Essas duas coisas, "ferro e pão", não só não se excluem como se complementam, pois os projetos militares norte-coreanos desempenharam até então um papel estratégico capaz de colocar os EUA na mesa de negociações e graças a isto já conseguiu inclusive uma série de benefícios materiais (o chamado "Agreed Framework", por exemplo).

É justamente ai que as mentes sãs devem parar, no PROBLEMA ESTRATÉGICO. O que a RPDC está fazendo? Dizer que o país está tomando uma "posição agressiva e belicista" sob os auspícios de um ditador louco é um absurdo.Gritam as páginas do jornal: "COREIA DO NORTE SUSPENDE ARMÍSTICIO". O problema é que o armísticio nunca foi respeitado por Washington e Seul. O parágrafo 60 do armistício estabelecia que todas as tropas estrangeiras deveriam se retirar da península e o parágrafo 13 bania a introdução de planos operacionais por parte de outros países. Hoje a Coreia do Sul está lotada de bases americanas com um contingente de 28,5 mil homens e anualmente ocorrem exercícios militares conjuntos das tropas norte-americanas e sul-coreanas, o que não é nada menos que uma provocação militar em larga escala repetida anualmente. Diversas foram as violações dos Estados Unidos. A RPDC, por sua vez, ofereceu diversas propostas de paz a seu inimigo. Os exemplos de tentativas da RPDC de acabar com o armísticio e assinar um tratado de paz vem desde os anos '70. Mais recentemente, houveram tentativas em 2010 ("North Korea on Monday indicated it would not give up its nuclear weapons until the U.S. signed a new peace treaty."; 60 anos da Guerra da Coreia), em 2011 e também no ano passado ("North Korea Calls for Unconditional Peace Treaty With U.S."). Na verdade, apesar da maior parte da mídia não ter deixado claro, a exigência da RPDC continua sendo a mesma: um tratado de paz formal e remoção das tropas norte-americanas do sul da península.

Por que os Estados Unidos, então, não acabam com essa guerra e assinam um tratado de paz? Armas nucleares? A Coreia deixou bem claro que abandonaria seus projetos em caso de um tratado de paz (que colocaram como condição), até porque sem a ameaça norte-americana estas já não seriam necessárias, não haveria guerra. Por que os Estados Unidos não assinam um tratado que reconheceria o direito da RPDC a existir como Estado, que levaria ao desarmamento, a pacificação e a reunificação do país? A presença norte-americana é o que vem frustrando todas as tentativas de aproximação das "duas Coreias" e que impede que a Coreia do Sul tenha uma proposta consistente de reunificação (o contrário da proposta norte-coreana, que implica na criação de uma federação de dois estados). Alguns dirão que isso é uma "blefe coreano" para que eles possam invadir a Coreia do Sul sem a presença norte-americana - não é como se os norte-americanos devessem ser a polícia do mudo, porém nada os impediria de intervir no conflito caso isso acontecesse. Um tratado de paz poderia inclusive levar ao fim da existência da RPDC enquanto Estado (os que falam das "maravilhas do capitalismo" deveriam ser os primeiros a concordar com isso). Repito, então, a pergunta: por que os Estados Unidos não assinam um tratado de paz? 

Podemos citar entre as razões: a indústria de guerra, os rendimentos da ocupação (sim, a Coreia do Sul é quem arca com os custos), a salvaguarda dos interesses econômicos norte-americanos e, principalmente, os interesses geopolíticos dos EUA. Em primeiro lugar, a Coreia do Sul é fundamental no que diz respeito a posição dos Estados Unidos em relação a China. Em segundo lugar, uma Coreia reunificada, forte e independente seria por si só um problema para a geopolítica estado-unidense na Ásia.

É com esses fatos em mente que devemos avaliar a atitude norte-coreana neste momento. A Coreia não está tomando uma atitude desesperada. É difícil estourar a guerra, a presença geopolítica da China e da Rússia dificulta as coisas para os EUA (mesmo que os dois primeiros provavelmente não intervissem diretamente) e este está degastado por guerras recentes (Obama tem uma imagem pública a preservar, até por isso tem uma predileção por Drones; uma guerra provavelmente seria conduzida com os americanos no ar e as tropas títeres sul-coreanas na terra). A intenção norte-coreana é bem clara: forçar os EUA, prostrado arrogante em seu pedestal cuspindo sanções, a sentar na mesa de negociações. Kim Jong-il demonstrou genialidade diplomática ao forçar com seu projeto nuclear os americanos a negociarem num momento em que eles esperavam sufocar completamente a República Popular. Kim Jong-un está emulando a astúcia diplomática de seu antecessor, forçando a negociação está fazendo o melhor para a República Popular que é combater as sanções. Não é de forma alguma "suicídio", é sim pragmaticamente a melhor opção frente as provocações militares e sanções econômicas - sem ferro não há pão. É graças as suas armas que a República consegue combater a fome, a escassez, os efeitos sombrios das sanções e que a República não se depara com os efeitos ainda mais sombrios do massacre bélico, da invasão militar e da total subjugação. Os mísseis são alto-falantes que permitem que a República fale com a potência militar norte-americana.

Lembrem-se de que "armísticio" não é paz e a guerra já vem acontecendo nos ultimos 60 anos. Esse é um ato de guerra calculado em resposta aos atos de guerra estado-unidenses. Se o inesperado acontecer e o confronto direto estourar, os coreanos estão prontos. Estão enganados aqueles que, iludidos com uma noção inocente de "ditadura", imaginam norte-coreanos presos em suas casas, tristes e famélicos, "sofrendo o fardo do regime esperando a libertação". Não existe na Coreia um autoritarismo anti-político. Esse é um regime baseado nas massas, não na repressão política - depende mais do consenso e do consentimento do que da coação física. Em cada fábrica e em cada bairro existe um comitê popular, e em cada comitê existe uma célula do Partido. Todos participam da vida política, em organizações de massa e são leais ao líder. A memória da agressão norte-americana é fresca. O regime é baseado na mobilização popular e todos estão preparados para um esforço bélico - os jovens sabem manejar. Muitos desses passaram fome durante a "Árdua Marcha" e isso só aumenta o seu orgulho, sua vontade de combater. Certos ou errados em sua lealdade ao regime, os coreanos combaterão fanaticamente até a morte.

O que sabemos até agora é que Kim Jong-un calou os que falaram de sua "fraqueza" ou "tendência ao abrandamento". A Conferência do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia que está ocorrendo nesse momento vem dando sinais numa ênfase maior na ideia de que o programa nuclear não é moeda de troca com o imperialismo, apontando para o sentido da maior radicalização.

Operários da Fábrica Têxtil Kim Jong Suk (que tive a oportunidade de visitar) em reunião anti-imperialista.


REVISTADO 15/04/2013

3 comentários:

  1. é dificil escolher em que acreditar... espero que essa guerra não aconteça.

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  2. Espero que a guerra aconteça. Sinto muito, chegamos ao limite e ninguém aguenta mais os EUA. Espero que a China se una a Coréia do Norte (não sei se isso ocorrerá) e espero que também mandem Israel pra o inferno.

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    1. Que bom que você não é um chanceler ou cônsul. "Onde a diplomacia falhar a guerra irá surgir, mas antes disso, esgote todas as possibilidades possíveis". Queria que lesse os relatos da Segunda Grande Guerra, o ser humano quando deixa de lado a razão e vive sob o ódio faz coisas que nem Deus acredita.

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