sábado, 13 de abril de 2013

Vitória norte-coreana: EUA cedem novamente

Washington dispõe-se a retomar ajuda a Coreia do Norte se o país "realizar ações importantes" para abandonar seu projeto nuclear, disse o secretário de Estado dos EUA, John Kerry (via RT). Em viagem pela Coreia do Sul e com Pequim na agenda, o diplomata declarou que seu país está disposto a voltar a mesa de negociação.

"Seguiremos tentando convencer a Coreia do Norte a tomar a decisão correta. Se o fizer, estaremos dispostos a cumprir com nossas obrigações" foi o que disse John Kerry. As "obrigações"  são as estabelecidas na declaração de 2005, quando Pyongyang recebeu a garantia  de ajuda energética em troca da redução gradual de seu programa nuclear. Com o descumprimento dessas obrigações, a República Popular retomou seu programa. Após recuar em suas provocações aéreas, os Estados Unidos cedem novamente com essa declaração. Não é a primeira vez que isso ocorre. O "Agreed Framework" de 1994 e a declaração de 2005 foram conquistados por vias parecidas - primeiro os Estados Unidos tentam sufocar a  Coreia com sanções, mas depois o fantasma atômico os faz negociar. É provável que a preocupação norte-americana tenha crescido com a ultima conferência do Comitê Central do Partido do Trabalho, onde se deu ênfase na ideia de que o projeto atômico não deve servir de moeda de troca com o imperialismo.

O que alguns chamaram de "ameaças insignificantes" surtiram um efeito devastador na política norte-americana, que mudou completamente o tom. O meu último artigo sobre o fato dessas "ameaças" terem dissuadido os EUA de seguir com suas provocações foi recebido com um ódio irracional e violento por algumas pessoas. Com linguagem adequada a desentendimentos ginasiais, escandalosamente diziam que "o gordinho [líder norte-coreano] só está ameaçando", que "se os EUA quiserem, não deixarão um coreano vivo sequer". Me acusaram de ter invertido a realidade, mas os fatos falam a meu favor - pelo jeito a "vontade" dos EUA é ceder a "provocações vazias". Diz o provérbio legal romano: "Allegatio contra factum non est admittenda" , uma alegação contrária aos fatos não deve ser ouvida.

"A intenção norte-coreana é bem clara: forçar os EUA, prostrado arrogante em seu pedestal cuspindo sanções, a sentar na mesa de negociações. Kim Jong-il demonstrou genialidade diplomática ao forçar com seu projeto nuclear os americanos a negociarem num momento em que eles esperavam sufocar completamente a República Popular. Kim Jong-un está emulando a astúcia diplomática de seu antecessor, forçando a negociação está fazendo o melhor para a República Popular que é combater as sanções. Não é de forma alguma "suicídio", é sim pragmaticamente a melhor opção frente as provocações militares e sanções econômicas - sem ferro não há pão." ("O que a Coreia do Norte está fazendo?", 1/04/2013)

Kim Jong Il iniciou o projeto nuclear com fins diplomáticos e de dissuasão. Tal estratégia fez Washington ceder diversas vezes (1994, 2005, 2013) e trouxe uma série de benefícios ao país (além da segurança externa; a ajuda energética, por exemplo). A Coreia ofereceu, diversas vezes, o seu projeto nuclear em troca de um tratado de paz (mais recentemente o fez em 2010, 2011 e 2012). Sua exigência segue sendo a mesma: um tratado de paz e a retirada das tropas norte-americanas do sul da península.  Kim Jong Un repetiu com sucesso a coragem de seu antecessor e novamente os Estados Unidos vão de uma postura agressiva para um tom mais conciliador. A história se repete e confirma o acerto da política norte-coreana: essa é a única abordagem capaz de forçar os Estados Unidos a sentar na mesa de negociação. provando errados aqueles que pensam que a potência pode fazer o que bem entende em sua política externa. A República Popular vem há uma década oferecendo seu programa nuclear em troca da paz; agora, depois do  Iraque e da Líbia, pode ser tarde demais.

Quer entender melhor a situação? Leia: http://www.realismopolitico.blogspot.com.br/2013/04/o-que-coreia-do-norte-esta-fazendo.html

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