quarta-feira, 22 de maio de 2013

Venner está morto, vida longa a morte!



"Nós devemos também lembrar, como brilhantemente formulado por Heidegger em Ser e Tempo, que a essência do homem está em sua existência e não em "outro mundo". É aqui e agora que nosso destino é apostado até o último segundo. E esse segundo final é tão importante quanto o resto de uma vida. É por isso que é necessário ser você mesmo até o último momento. É ao decidir, ao verdadeiramente querer o próprio destino, que se conquista o nada. E não há escapatória dessa demanda, porque nós só temos essa vida, na qual é nosso dever sermos plenamente nós mesmos - ou sermos nada." (Dominique Venner em seu último artigo, "Os Protestos de 26 de Maio e Heidegger")

No dia 21 de Maio de 2013, o historiador, escritor e militante político Dominique Venner deu fim a sua vida com um tiro em frente ao altar da Catedral de Notre Dame. Conservador revolucionário (chamado por alguns de "extrema-direita") e inimigo do Estado francês, era antes de tudo um inimigo da modernidade. Num ato visto como protesto contra o casamento gay na França, porém de dimensões metafísicas mais profundas, Venner morreu como um nietzschiano e, mais do que isso, como um pagão. O gaulês Brannos, que seguiu Bolgius, filho de Segovesus, até a Macedônia e com Chichorius liderou hordas celtas até Delfos, cometeu suicídio ritual após completar conquista. Cumprida sua missão, estava pronto para partir para o outro mundo de forma ritual, dando a condescendência divina a tomada de posse daqueles lugares por seu povo. Vercingetórix, o último caudilho gaulês, entregou sua vida em Alésia para salvar a de seu povo, frente a ameaça de massacre vinda de um gigante como Júlio César. Nas grandes epopéias célticas os grandes deuses e heróis morrem ou são derrotados no final, mesmo adquirindo a imortalidade e os dons do espírito.

"O celta não luta para ganhar, luta porque tem de fazê-lo, porque a própria vida é uma guerra cujo o principal inimigo, a morte, é invencível e sempre acaba nos deixando de joelhos. Sua alegria está em saber que nunca será totalmente derrotado, já que ele não desaparece com a morte. Simplesmente descansará no Outro Mundo antes de retornar, pronto para um novo combate." (Pedro Pablo G. May)

Segue a despedida de Venner, "As Razões para uma Morte Voluntária":

Eu estou sadio em mente e corpo, e estou repleto de amor por minha esposa e filhos. Eu amo a vida e não espero nada além, senão a perpetuação de minha raça e minha mente. Porém, no entardecer de minha vida, me deparando com imensos perigos para minha pátria francesa e europeia, eu sinto o dever de agir enquanto eu ainda tenho forças. Eu creio ser necessário me sacrificar para romper a letargia que nos empesteia. Eu entrego o que resta de vida em mim de modo a protestar e fundar. Eu escolho um local altamente simbólico, a Catedral de Notre Dame de Paris, que eu respeito e admiro: ela foi construída pelo gênio de meus ancestrais no local de cultos ainda mais antigos, reclamando nossas origens imemoriais.

Enquanto muitos homens são escravos de suas vidas, meu gesto corporifica uma ética de vontade. Eu me entrego à morte para despertar consciências adormecidas. Eu me rebelo contra o destino. Eu protesto contra venenos da alma e os desejos de indivíduos invasivos de destruir as âncoras de nossa identidade, incluindo a família, a base íntima de nossa civilização multimilenar. Enquanto eu defendo a identidade de todos os povos em seus lares, eu também me rebelo contra o crime da substituição de nosso povo.

O discurso dominante não pode deixar para trás suas ambiguidades tóxicas, e os europeus devem lidar com as consequências. Carecendo de uma religião identitária para nos ancorar, nós partilhamos de uma memória comum que volta até Homero, um repositório de todos os valores nos quais nosso futuro renascimento será fundado uma vez que rompamos com a metafísica do ilimitado, a fonte dolorosa de todos os excessos modernos.

Eu peço desculpas antecipadamente a qualquer um que venha a sofrer com a minha morte, primeiramente e mais importantemente a minha mulher, meus filhos, e meus netos, bem como a meus amigos e seguidores. Mas uma vez que a dor e o choque se dissipem, eu não duvido que eles compreenderão o significado de meu gesto e transcenderão seu pesar com orgulho. Eu espero que eles resistam juntos. Eles encontrarão em meus escritos recentes intimações e explicações de minhas ações.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Valoração do passado socialista entre os romenos.

A Romênia, como boa parte dos países não-soviéticos da Europa do Leste, foi um país socialista que possuía políticas econômicas que podem ser consideradas como "moderadas", com alguns mecanismos de mercado e coisas desse tipo; para os comunistas não era a rigor um modo de produção socialista e estava mais longe do mesmo que a União Soviética, por exemplo. De qualquer forma, era uma economia planificada dirigida pelo Estado sob a liderança de um partido comunista. Os níveis de consumo eram altos relativo aos Balcãs. O país também teve problemas com dívida externa que se expressaram principalmente nos anos '80. Como os outros países do leste, a Romênia foi em muitos aspectos destruídas pela restauração do capitalismo.

Não acredito em "Vox Populi Vox Dei" e não acredito na supremacia do número, desconfiando de visões demo-liberais quantitativistas de "opinião pública". No entanto essa pesquisa é de grande valia no estudo da queda do socialismo e suas consequências.

O texto foi traduzido do espanhol do site http://imbratisare.blogspot.com.br/




Uma nova pesquisa (de uma instituição anticomunista) mostra a crescente valoração do passado socialista entre os romenos


61% dos romenos consideram que o comunismo hoje [2010] seria uma boa ideia, frente a 53% de há quatro anos atrás, segundo a última sonda realizada pela empresa de estudos sociológico CSOP, apesar de ter sido realizada em colaboração com o Instituto de Investigação dos Crimes do Comunismo e da Memório do Exílio Romena (instituição criada pelos golpistas de 1989 para construir a propaganda ideológica necessária para criminalizar o comunismo).

Mais da metade da população afirma que antes de 1989 se vivia melhor do que hoje, ao passo que só 23% afirmam que era pior. Igualmente a porcentagem dos que afirmam que Ceausescu no geral fez pelo país é de 25%, frente a 15% que crê que seu trabalho foi negativo para Romênia.

Abaixo alguns dos principais dados da sonda:

- A percepção dos romanos acerca do comunismo é muito positiva e 61% destes consideram
atualmente o comunismo uma boa ideia, frente a 53% de 4 anos atrás. Assim a tendência vai
subindo, e parece que a propaganda anticomunista é cada vez menos eficaz entre os romenos.

Há quatro anos um estudo similar mostrava que 12% dos romenos consideravam o comunismo uma
boa ideia bem aplicada, 41% uma boa ideia mal aplicada e 34% uma má ideia e ponto (de
qualquer forma já há quatro anos estes já eram minoria). Hoje, 14% pensam que foi uma boa
ideia que foi bem aplicada, 47% que foi uma boa ideia mal aplicada 27% pensam que foi uma má
ideia, o que mostra a tendência de abaixar o número daqueles que mordem o anzol da propaganda anticomunista.

[RP: É natural que frente a pressão da propaganda anticomunista muitos digam que "foi uma boa ideia porém mal aplicada", respondendo as acusações feitas contra o regime. Muitos deste não devem ter tido nenhum problema como o regime e não diriam isso se não fosse a pressão da propaganda, tanto o é que a maioria diz que a vida era melhor.]

- Metade da população romena afirma que antes de dezembro de 1989 se vivia melhor do que hoje em dia, sendo que 23% consideram o contrário, que se vivia pior, e 14% pensam que era igual.


O motivo principal dos entrevistados argumentaram para explicar porque era melhor antes do golpe de estado de dezembro de 1989 são os seguintes: havia trabalho para todos (62%), o nível de vida (26%) e o direito a moradia (19%), quer dizer, a garantia de direitos sociais básicos sob o socialismo.

Ao contrário, os principais motivos mencionados pela minoria que evalua negativamente o comunismo são os típicos vendidos pela propaganda midiática: a ausência de liberdade de modo genérico (69%), a pobreza e ausência de informação (11%). Por supsto não se opinia sobre a existência ou  não de liberdade real na ditadura do capital e sobre o grau de pobreza atual, que supera o imaginável antes de 1989.


[RP: Dados sobre a composição de classe, localidade e da situação em geral dos entrevistados  seriam de grande valia, porém podemos deduzir algumas coisas a partir destas respostas. 

Possivelmente os que acham era igual eram pequenos proprietários ou funcionários pouco  afetados pela crise nos anos '80 e que também não tiveram problemas também com a queda do socialismo.

É muito provável que boa parte daqueles que dizem que a vida era melhor no comunismo foram 
os que enfrentaram problemas como o desemprego e aluguéis de moradia após 1989. É importante 
notar, também, como essa visão concreta que se concentra em fatores concretos se contrapõe aos argumentos daqueles que dizem que era "pior", apelando para a "liberdade" genérica e a "pobreza" para justificar sua posição, afinal precisam de uma justificativa geral e plausível para suas preferências e repulsa. Quem se beneficiou do capitalismo certamente não quer a volta do comunismo e dirá esse tipo de generalidade por não ter uma referência concreta de "problema" como aquele que passou pelo desemprego ou outros problemas reais no pós-queda. Ao contrário dos que responderam positivamente e podem tirar seus argumentos da experiência (emprego, casa), os que se beneficiaram podem recorrer a alguma generalidade, de preferência uma de significativa reverberância. Não só para os mais beneficiados, mas para aqueles que estão numa condição de classe média alta com um bom acesso a bens de consumo, "pobreza" deve ser algo que faz sentido de se falar. Essa minoria da minoria que usou a "pobreza" como argumento demonstrou uma dissonância cognitiva ou um déficit de atenção, porque é válido lembrar que estamos tratando de uma comparação entre o "antes" e "depois", e a pobreza só aumentou ostensivamente após a queda do socialismo. Do ponto de vista geral, o argumento da pobreza é inválido - talvez faça sentido do ponto de vista subjetivo destes que enriqueceram etc. Por fim, fato é que essas respostas discrepantes (os benefícios sociais concretos vs. noção genérica de liberdade) indicam diferentes origens de classe nos entrevistados. ]

Em comparação, num estudo realizado em 2009, 72% dos hungaros declararam que viviam pior hoje do que no período socialista, como os 62% dos búlgaros e ucranianos, 42% dos lituanos e eslovacos, 45% dos russos, 39% dos checos e 35% dos polacos. [RP: O irônico é que a Polônia socialista estava melhor do que alguns desses países]

- Entretanto, o número dos que consideram que o regime comunista foi criminoso é mais do que os que não crêem assim (41% frente 37%), mesmo que tão pouco se pergunte que se opine a respeito do capitalismo criminoso.

Igualmente, o regime comunista é visto como "ilegitimo" por 42%, sendo que 31% crê no contrário (há de se levar em conta que a historiografia romena tem se dedicado desde 1990 a construir uma verdade histórica adequada ao golpe de estado: que os governos comunistas conseguiram o poder na Romênia através da fraude eleitoral e das imposições de Moscou, sendo assim, na falta de uma investigação objetiva sobre os acontecimentos reais, essa percepção é lógica).

[RP: Imaginemos a pressão existente nesse sentido no pós-queda. A chuva de propaganda anticomunista martelou incasavalmente os "crimes dos comunistas" e a tendência das pessoas nostálgicas por coisas como seguridade social é de ceder nesse aspecto por apelar para sua consciência moral. "Ok, tudo bem, houveram crimes, mas a vida era boa!", esse é um fenómeno psicológico e argumentativo recorrente nos mais diversos temas. É como o sujeito que é contra as cotas porém "pede desculpas" por isso dizendo que "não é racista, mas". É um caminho mais fácil (tanto no campo psicológico quanto no campo do debate, já que não demanda conhecimento ou dados para contrapor as acusações) do que contrapor as acusações e ocorre muito no caso do socialismo; despreparado e pressionado o sujeito precisa justificar de alguma maneira seu apego ao regime: "cometeu crimes, mas pelo menos tinha seguridade social", "Fidel Castro pode ter feito isso, mas trabalhou para o povo", etc. São vários os esquerdistas que pressionados pela propaganda anticomunista a reconhecem porém fornecem um "contra-motivo" que justifica suas posições.

O autor fez uma observação sobre a ausência de uma pergunta parecida sobre o novo regime, afinal a pesquisa pretende fazer uma comparação.] 


- No que se refere aos atributos que definem o comunismo, 46% consideram que são muito positivos, ao passo que somente 32% os consideram negativos, 5% são neutros.

Os aspectos favoráveis do comunismo são, segundo as respostas mais repetidas: seguridade do
trabalho, segurança tendo em vista o dia de amanhã, uma vida digna e igualdade entre indivíduos.

- Quanto a percepção dos líderes comunistas, Nicolas Ceausescu e Gheorghe Gheorghiu-Dej, o primeiro mais conhecido, como é lógico, por ser mais recente, ainda que o segundo tenha uma melhor imagem.



A porcentagem dos que creem que Nicolas Ceausescu fez muito para a Romênia é maior do que creem que não (25% frente 15%). A maioria dos romenos creem também que os livros de história deveriam mostrar também os aspectos postivios dos governos socialistas, ao invés de remarcar somente os negativos como fazem atualmente.

- Quanto a repressão no comunismo, somente 13% dos participantes dizem ter sofrido pessoalmente ou através de amigos ou familiares, e esta minoria disse que a principal forma em que isso se manifestou foi através de penúria alimentar e falta de serviços (47%) e o que eles entendem como um ataque aos direitos humanos quando falam de requisição e confisco de bens.

Em conclusão, o estudo mostra uma tendência generalizada há anos em toda Europa do leste de recuperação da memória histórica, quer dizer, de superar a constante e repetitiva propaganda anticomunista para julgar por si mesmos a realidade. Neste caso é evidente que, com o mero exercício da comparação, o resultado é que, inclusive aqueles que em 1990 tinham esperanças de um futuro paradisíaco como prometiam os golpistas, a população cada vez mais verifica a redução dos direitos sociais e do nível de vida anterior a 1989, para a surpresa e desespero daquele que tem passado tantos anos justificar através da manipulação do passado o domínio das oligarquias e a submissão a ideologia capitalista.

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Europa Oriental: 15 Anos depois, a dura realidade

sábado, 18 de maio de 2013

Europa Oriental: 15 anos depois, a dura realidade

Seguem alguns dados sobre a barbárie social que se abateu sobre os países do Leste Europeu depois da queda do socialismo. É interessante como existem incautos ignorantes o suficiente para acreditar que a pobreza que existe naqueles países hoje "se deve ao socialismo", numa lógica falaciosa de post hoc ergo propter hoc. Com o capitalismo não veio somente o desmantelamento e privatização de grandes empresas aliada ao desaparecimento da segurança social, veio também o caos. Tráfico de pessoas, abuso de drogas, corrupção, criminalidade, assassinato, desemprego, impunidade, etc. Eu diria nessa linha que "diversos autores e fontes" reconhecem o bem estar social existente nesses países nos tempos do socialismo, porém seria ridículo já que não existe polêmica quanto a isso (como esses dados estão aí para mostrar). A nostalgia do socialismo tem suas origens. Me impressiona que alguns "libertários", especialmente os mais novos, acreditem que isso realmente foi um "avanço" e que o mercado é capaz de resolver todos os problemas sociais; a eles cabe a honestidade de reconhecer a barbárie que se instaurou nesses países e defender aquilo que acreditam, dizer que "esse é o preço da liberdade", ao invés de forjar quimeras para se opor. Gastam a saliva para falar da "impossibilidade do cálculo econômico", "eppur si muove" - o socialismo certamente funcionava e funcionava melhor que o regime econômico atual, implicava num avanço sem precedentes nas forças produtivas, avanço abortado pelo capitalismo. É claro que para os nossos "macroeconomistas" e demais "especialistas" a robustez de uma economia não se mede por suas forças produtivas e sim por uma "estabilidade" que nada mais é que a estabilidade do capital financeiro. É bom lembrar também dos "esquerdistas", especialmente os morenistas da LIT-PSTU que comemoram esse acontecimento da queda do socialismo sob o pretexto de "permitir a reorganização dos trabalhadores". "Reorganização" dos trabalhadores desempregados que foram demitidos por multinacionais ou tiveram suas empresas fechadas, dos esfomeados? Os trabalhadores que tiveram suas organizações atacadas e foram duramente reprimidos por Yeltsin (que chegou a bombardear o Parlamento) quando tentaram recuperar o que perderam? Os fatos gritam por si só, e fato é que a queda do socialismo significou um retrocesso nas forças produtivas desses países (que demonstrarei em tabelas numa outra postagem), anomia, fim da seguridade social e um grande golpe aos trabalhadores e de toda sociedade no que concerne sua situação material. Até hoje não houve recuperação, mesmo com o abrandamento de efeitos que foram extremos nos anos '90 e 15 anos depois se faziam sentir. Por fim, como disse, cada um trás os seus valores e julga isto como preferir: para os trotskistas da LIT é provável que o melhor seja assim mesmo.



Europa Oriental: 15 anos depois, a dura realidade

Por Marc Vandepitte



A instauração do capitalismo significou um retrocesso para todos os países da Europa Oriental, tanto no plano econômico quanto no social. Um relatório das Nações Unidas declara: "A mudança de uma economia planificada para uma economia de mercado foi acompanhada de grandes mudanças na divisão da riqueza nacional e no bem-estar social. As estatísticas mostram que são as mudanças mais rápidas jamais registradas. Isso é dramático e acarretou um custo humano elevado" (1).

Entre 1990 e 2002, o produto interno bruto (PIB, o conjunto de bens e serviços produzidos em um ano) por habitante dos países da Europa Oriental diminuiu em 10%, enquanto em países de nível comparável o aumento no mesmo período do PIB foi de 27% (2). Isso representa uma perda efetiva de quase 40%. Essa regressão vale para todos os países, salvo Polônia e Eslovênia.
Hoje, o PIB per capita dos antigos países comunistas da Europa Central e Oriental é 25% menor que o da América Latina (3). Para as repúblicas da ex-União Soviética a situação é mais dramática ainda. Nos anos 90 o PIB caiu em 33% (4). A Ucrânia teve, inclusive, uma diminuição de 48% (5) entre 1993 e 1996, e a Rússia teve de 47% (6).

As ações das empresas Estatais foram vendidas a preços ridiculamente baixos, uma grande parte do poderoso aparato econômico e industrial foi desmantelada. Em alguns anos, a grande potência industrial que era a Rússia se converteu em um país do Terceiro Mundo. O seu PIB (144 milhões de habitantes) é mais baixo que o dos Países Baixos (16 milhões de habitantes).
A União Soviética retrocedeu economicamente em uns 100 anos. No momento da revolução socialista, em 1917, o PIB per capita era de 10% em relação ao dos americanos. Em 1989, apesar do fato de a União Soviética ter deixado a Segunda Guerra esgotada e praticamente destruída, o PIB per capita alcançava 43% do índice dos americanos (7). Hoje, o PIB per capita russo é menor de 7% do índice dos cidadãos dos EUA.

A situação social

Cerca de 150 milhões de habitantes da ex-União Soviética (isto é, o número de habitantes de França, Reino Unido, Países Baixos e Escandinávia reunido) desapareceram dentro da pobreza nos princípios dos anos 90. Hoje vivem com menos de 4 dólares por dia (8). O número de pobres que vivem com menos de um dólar por dia se multiplicou por vinte. Na Bulgária, Romênia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Moldova o número de pobres atinge de 50% a 90% da população (9).

Segundo um estudo recente da Unicef, um em cada três crianças dos antigos países do Leste Europeu vive hoje na miséria (10). Um milhão e meio de crianças vivem em orfanatos. Na Rússia, o número de crianças abandonadas foi duplicado, apesar da forte diminuição da taxa de nascimentos. Em Bucareste, capital da Romênia, centenas de crianças vivem nas ruas e mais de 100 mil abandonadas. E no antigo Bloco Oriental mais de 100 mil delas foram empurradas para a prostituição.
Os cuidados médicos e sociais com as crianças foram quase inteiramente desmantelados. Para muitas mulheres, a mudança para o capitalismo foi também uma verdadeira catástrofe: "Um numero crescente de mulheres é vítima da violência. Muitas mulheres que procuraram desesperadamente por trabalho e por uma vida melhor foram empurradas para a prostituição, organizadas por máfias" (11). A cada ano, aproximadamente, meio milhão de mulheres da região é literalmente exportado para os países da Europa Ocidental (12).

Antes da passagem para o capitalismo, a região vivia um bem-estar social garantido. Um relatório das Nações Unidas descreve: "Antes dos anos 90, as condições sociais nos países da Europa Central e Oriental e nos países da CEI (13) eram notavelmente boas. Havia uma grande segurança social como base. O emprego era garantido por toda a vida. Da mesma forma, se a renda monetária era baixa, era estável e segura. Muitos bens de consumo e serviços básicos eram subsidiados e o abastecimento era regular. Havia alimentação suficiente, roupas e moradias. O acesso à educação e à saúde era gratuito. A aposentadoria estava assegurada e as pessoas podiam desfrutar de outras formas de proteção social" (14).

O relatório continua: "Hoje, uma educação satisfatória, uma vida sã e uma alimentação suficiente não estão asseguradas. A taxa de mortalidade aumenta, novas epidemias potencialmente destruidoras ameaçam e tornam a vida (e a sobrevivência) num crescente e alarmante perigo" (15).

Uma conseqüência: certos países dramaticamente perdem população. Na Ucrânia, a população diminuiu em 1,2 milhões de pessoas desde o ano de 1991. Na Rússia, entre 1992 e 1997, em 5,7 milhões, apesar da chegada de 3,7 milhões de imigrantes de países vizinhos. O que quer dizer que a cada dia que passa há menos 3,5 mil russos no país.
As Nações Unidas estimam que, se a atual tendência não se inverter a população dos antigos países do Leste Europeu terá diminuído 20% em 2050 em relação aos dias de hoje. De 307 milhões de pessoas, passarão para 250 milhões (16).

Que pensa o povo?

As pessoas oscilam entre a decepção, a resignação e a cólera. Alguns exemplos:

A Polônia foi a nação que se deu melhor com a transição. Neste país tão católico o comunismo jamais teve vida fácil. Entretanto, 44% dos poloneses de hoje julgam o período do Bloco Socialista como "positivo". Quarenta e quatro por cento dos poloneses estimam que o socialismo é uma boa doutrina, mas que foi "mal aplicada". Trinta e sete por cento fazem uma apreciação positiva do partido comunista, que esteve no poder de 1945 a 1989. Trinta e um por cento deles se dizem descontentes com o período findo com a queda do muro. Somente 41% acham que o capitalismo ainda é um sistema melhor (17).

Um pouco mais para o Oeste, no território da antiga Alemanha Democrática, 76% dos alemães consideram o socialismo "uma boa idéia, mas que foi mal aplicada" e só um em cada três deles está satisfeito com a forma como funciona a democracia (18).

De acordo com uma pesquisa feita em 1999, 64% dos romenos preferiam viver sob o comando do premiê Ceausescu (19).

Na Rússia, Lênin é ainda muito popular. Sessenta e sete por cento dos russos emitem opiniões positivas a seu respeito. Apenas 15% deles falam de Lênin utilizando termos negativos (20).

Há milhares de insatisfações e o potencial de revolução é grande. As feridas do passado estão ainda abertas e a confusão ideológica ainda é grande, mas não se afasta a idéia de que, em um futuro próximo, se regresse ao socialismo, mas desta vez, "bem aplicado".

Os males típicos do Terceiro Mundo

Desde a instauração do capitalismo, a Europa Oriental parece cada vez mais formada por países do Terceiro Mundo.

A décima parte dos habitantes dos antigos países do Bloco Socialista está desnutrida. Na Rússia, uma criança em cada sete sofre de desnutrição crônica.

Pela primeira vez em 50 anos, o analfabetismo reapareceu.

A tuberculose está novamente tão disseminada como no Terceiro Mundo.

O número de casos de sífilis na Rússia, em 1998, era quarenta vezes maior que o de 1990.

A esperança de vida dos russos de sexo masculino passou de 63,8 para 57,7 anos, entre 1992 e 1994. Na Ucrânia diminuiu de 65,7 para 62,3 anos.

Desde 1992, o número de alcoólatras duplicou na Rússia.

Para cada 100 casos de gravidez, há 60 abortos na Rússia. A conseqüência é brutal: 6 milhões de mulheres são estéreis.

O número de suicídios na Polônia aumentou em 25%. Em alguns países da ex-URSS dobrou.

O número de crimes, na Bulgária, é quatro vezes maior que em 1989. Na Hungria e na República Tcheca triplicou. Na Polônia, aumentou em 60% o número de assassinados. Noutros países, em até 250%.

As Nações Unidas estimam que o número de mortos nos antigos países socialistas, atribuídos às novas enfermidades (facilmente curáveis) e à violência (guerra) é de 2 milhões nos primeiros 5 anos da passagem para o capitalismo.


Notas

1. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 1999, pp. 39 e 79.

2. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 2004, p. 187.

3. Ibidem.

4. Comissão econômica das Nações Unidas para Europa, ver www.unece.org/stats/trends/ch5/5.2.xls.

5. Financial Times, 12 de outubro de 2004.

6. Le Monde Diplomatique, julho de 1998.

7. Harpal Brar, Imperialismo. Decadente, Parasita, Moribundo Capitalismo, Londres 1997, p. 210.

8. James Gustave Speth, The Plight of the Poor, Foreign Affairs, maio-junho 1999; PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 1997, p. 35.

9. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 2000, p. 172; Unicef, Poverty, Children and Policy, Report n. 3, Nova Iorque, 1995; PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 2004, pp. 150-151; Michael Chossudovsky, Global Poverty in the late 20th Century, p. 296.

10. Unicef, Eastern Europe & Central Asia: Millions of Children bypassed by Economic Progress, Moscou 2004.

11. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade para Europa central e oriental & a CEI, 1999, pp. 7-8.

12. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade, 1999, p. 89.

13. CEI, Confederação de Estados Independentes, uma organização desaparecida das antigas repúblicas soviéticas.

14. PNUD, Informe sobre a evolução da humanidade para a Europa Central e Oriental e a CEI, 1999, p. 2.

15. Ibidem, p. 10.

16. The New York Times, 4 de maio de 2000; Le Monde Diplomatique, março 1999; Le Monde Diplomatique, julho 1998.

17. Le Monde Diplomatique, janeiro de 2001; La Libre Belgique, 2 de agosto de 2002.

18. The Guardian, 9 setembro de 2004.

19. NRC Handelsblad, 14 de dezembro de 1999.

20. NRC Handelsblad, 18 de abril de 2001.


Marc Vandepitte é escritor. Escreveu livros em holandês sobre Cuba, Iraque e a antiglobalização

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Cresce o número de milícias anti-governo nos EUA




O número de grupos patriotas radicais e milícias que se opõem ao governo nos EUA foi de 149 em 2008 a 1360 em 2012. Segundo o Southern Poverty Law Cent, responsável pela pesquisa, a tendência é que esses grupos continuem a crescer como reação a ofensiva desarmamentista de Obama. Segundo o centro, o aumento crescente desses grupos começa com a eleição de Barack Obama e a intensificação dos problemas econômicos do país.

"O segundo mandato do Presidente Obama e o movimento de controle de armas estimulado pelo massacre na Escola Elementar Sandy Hook está intensificando a fúria anti-governo e vai resultar em mais crescimento para os grupos", disse um representante do centro. Daryl Johnson, ex-analista de inteligência acerca de terror doméstico, disse que a capacidade desses grupos infringir violência em massa é um tanto quanta alta. Essas organizações estocam armas e realizam diversos exercícios militares de treinamento, além de outras atividades de sobrevivência, solidariedade e vida política em geral. Segundo o centro, é preciso ainda lidar com o espectro da possibilidade desses movimentos se insurgirem contra o governo.

Verificou-se também uma intensificação na retórica dos grupos. "O governo dos Estados Unidos segue a agenda da ONU", "estamos a beira de uma Guerra Civil", "a lei marcial é uma possibilidade real", "o Estados precisam defender a liberdade antes que os cidadãos tomem o problema com as suas próprias mãos".

No geral, a ideologia do "movimento de milícias" expressa o que podemos chamar de conservadorismo jeffersoniano. São localistas e anti-federalistas*, se opondo a um Estado central forte, a muitos impostos e a Federal Reserve. São chamados de patriotas" provavelmente devido seu declarado comprometimento com os princípios da Revolução Americana e sua constituição, especialmente com a Segunda Emenda (sobre o direito a portar armas). Movimento majoritariamente rural, também expressa desconfiança em relação a entidades internacionais (ONU, Banco Mundial) e grandes corporações. Acusa o Estado Federal de "fascista" e identifica a agenda governamental como um processo de implantação do que eles chamam de "socialismo"(entendido como limitações aos direitos de propriedade, desarmamento, mais impostos e intervenção estatal que favoreça as grandes corporações e bancos internacionais em detrimento dos pequenos proprietários e trabalhadores).

Esses dados podem escandalizar muitos "esquerdistas" do Brasil (muitos admiradores de Barack Obama ou pelo menos de suas "políticas sociais" e/ou desarmamentistas) pelo fato de se tratarem de grupos de "direita", o que é, aparentemente, uma posição irrefletida. É preciso questionar as razões da proliferação desses grupos. Quais são os limites do consenso e do consentimento político na sociedade norte-americana?    Seriam esses sinais de uma possível ruptura? O Estado numa situação normal precisa do consentimento de seus súditos, mais ainda quando esses são cidadãos, se isso não ocorre, estabelece-se um conflito entre entidades políticas distintas pelo estabelecimento de seus próprios projetos de Estado. Independente da auto-imagem de cada um desses grupos, é notável que este crescimento ocorra num momento de crise capitalista e como reação ao governo responsável por salvar grandes corporações com suas intervenções econômicas. Este tipo de movimento tende se aprofundar com o aprofundamento de crises (não econômicas como também políticas), e certamente isso implica num fator de instabilidade interna assim como põe em cheque a política exterior dos Estados Unidos da América.


"Esta máquina mata fascistas", diz a inscrição.

*É preciso compreender isso dentro do conflito entre federalistas e anti-federalistas que se deu nos primórdios da Revolução Americana. Os federalistas, que contaram com uma figura como Alexander Hamilton, defendiam um governo central forte, mais unificado, mais rico (i.e. mais impostos), coeso, com um executivo mais poderoso, composto pelos elementos mais experientes e talentosos (a ampliação da burocracia profissional) , a criação de um exército permanente, mandatos mais longos e mais limitações sobre o poder popular, muito disso como uma reação a rebeliões e a rejeição de certos impostos e medidas administrativas por parte de assembleias locais; contavam principalmente com membros da classe proprietária mais bem educada, alguns membros da burocracia, a maioria proveniente das costas americanas. Os anti-federalistas, que tinham Jefferson como uma das principais cabeças, defendiam maior autonomia local, maior autonomia das unidades federativas, eleições anuais de representantes e uma carta de direitos (considerada superfiluá pelos federalistas); tinham um forte apelo entre as classes populares, pequenos fazendeiros e individuos endividados.

Fonte: http://www.usatoday.com/story/news/nation/2013/03/05/southern-poverty-law-center-militias-gun-control/1964411/