sábado, 24 de agosto de 2013

Sobre o "ataque de gás" em Damasco, Síria - quem ganha?




Quando criei esse blog, o fiz na intenção de sempre perguntar: cui bono? Quem ganha? É o que temos que nos perguntar em política. É um princípio pertinente com o recente "ataque de gás" na periferia de Damasco, que colocou o Oriente Médio a beira de uma intervenção militar direta. Algumas pessoas ao invés de pensarem com calma já se entregaram a certezas histéricas quanto a culpa de Assad nesse caso.

Por exemplo, o partido conhecido como PSTU já dá os seus gritos emotivos contra a "ditadura" e em favor dos rebeldes apoiados pela OTAN, imediatamente após ao ataque e de maneira extremamente irrefletida. Condenam Assad com a mesma velocidade que apoiaram o golpe militar no Egito que já era apontado por muitos como uma manobra americano-sionista muito antes dos massacres. Fortes emoções atrapalham a razão dos militantes, o que os coloca constantemente numa condição de caixas de ressonância do Departamento de Estado norte-americano.

Para construir uma reflexão sobre os fatos e mostrar que o ataque não partiu do governo sírio, prepare alguns pontos que se dividem entre contra-evidências e fatos que considero relevantes.

1 - Assad está ganhando a guerra. É uma atitude desesperada e quem está desesperado não é o governo.

2 - Se trata de uma área de apoiadores, Damasco é zona lealista e sob controle do governo, o contrário da desinformação que vem sendo espalhada por ignorantes de que o ataque foi contra rebeldes. Não se trata propriamente do front. O "normal" seria utiliza-lo contra no front, contra tropas e cidades inimigas. É curioso que o "governo assassino" só demonstre disposição em utilizar armas químicas nesse momento de maior estabilidade.

3 - Assad tem agido racionalmente em relação aos próprios interesses e se preocupa com "relações públicas". É no mínimo estranho que o governo, sem nenhuma oposição de dentro do exército (afinal um homem pode ser louco mas os outros certamente sabem que tal ataque seria inútil), tenha escolhido usar armas químicas em Damasco (o que nessas condições geraria uma insurreição) e exatamente um dia depois da chegada de uma comissão internacional para avaliar o uso de armas químicas? A Síria pode até ter o maior depósito de gás sarin do mundo, mas pelo jeito não vem empregando o mesmo com frequência.

4 - Esses tipo de ações condizem com o histórico de ações do imperialismo norte-americano, cujo objetivo, obviamente, é desestabilizar o governo sírio. Obviamente isso não prova, no entanto, é fato de que o acontecimento cria jus bellum para uma intervenção na Síria e os Estados Unidos já se posicionam para uma ação militar contra síria, conforme já foi declarado pelo secretário da Defesa Chuck Hagel. Para os militantes do PSTU, não existe correlação lógica entre as canhoneiras americanas e o "ataque químico" - provavelmente inventarão algum absurdo teórico pseudo-marxista do tipo "o imperialismo quer sufocar a revolução neste momento em que a ditadura está desmoronando"(com uma lógica parecida eles falam de contatos passados de Damasco com Washington e de multinacionais na Síria quando confrontados pelo apoio da OTAN aos rebeldes sírios).

5 - A Rússia apontou o ataque como uma montagem dos rebeldes (o que é muito sério, se trata de um Estado com forte presença de serviços de inteligência em Damasco). O Irã (também muito presente) disse que entregará provas de que os rebeldes usaram armas químicas. Estas declarações não suscitam dúvidas nos militantes do PSTU, afinal a Rússia e o Irão são "governos reacionários que apoiam a ditadura" - é curioso que os militantes não tenham tanto zelo assim em relação aos Estados Unidos, a OTAN, os rebeldes, etc.. Quanto ao posicionamento do governo da Síria, estes a priori disse que iria investigar e que tinha os rebeldes como suspeitos.

6 - É questão de bom senso. O governo de Damasco não tem nada a ganhar com esse tipo de ação, até porque ele sabe que de qualquer maneira seria considerado culpado e comprometeria sua vitória com uma possível intervenção internacional.

Aparentemente, nada disso levanta uma dúvida sequer na cabeça do PSTU, afinal todos sabem que Assad é um "ditador louco assassino que massacra o próprio povo". O partido além de ser vítima do viés de confirmação do senso comum é acometido por uma cegueira política incapaz ver os movimentos estratégicos e maquinações do imperialismo - aniquilaram o bom senso.

NOTA: O "ditador", que tinha pleno direito soberano de negar, liberou que os agentes internacionais investiguem.

Uma notícia antiga (de maio) sobre caso parecido envolvendo o gás sarin: http://www.washingtontimes.com/news/2013/may/6/syrian-rebels-used-sarin-nerve-gas-not-assads-regi/

Foram encontradas armas químicas que estariam em posse do rebeldes

http://portuguese.ruvr.ru/news/2013_08_24/autoridades-sirias-encontraram-armas-quimicas-em-tunel-de-rebeldes-8198/

http://rt.com/news/rebel-tunnel-damascus-chemical-940/

https://www.youtube.com/watch?v=rUW_oFufU-Y

http://rt.com/news/syria-green-light-chemical-inspection-967/

http://rt.com/news/iran-warns-us-red-line-961/

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Uma senhora georgiana e o socialismo



Navegando encontrei este vídeo que é uma entrevista com uma senhora georgiana, "Era a vida melhor sob Stálin?". Essa senhora nasceu em uma família pobre de trabalhadores manuais, ela mesma já fez trabalhos braçais, estudou sob o socialismo, serviu na guerra e inclusive foi super-intendente de uma campo de prisioneiros de guerra (principalmente alemães) - quer dizer, foi parte da "casta burocrática stalinista", apesar da sua pobreza não indicar isso para os incautos. De qualquer forma, me chamou atenção a extrema simplicidade da forma como ela entende o socialismo, captando em poucas palavras a lógica do mesmo de maneira que muitos acadêmicos e "teóricos marxistas" não conseguem.

"Um homem como Stálin nunca nasceu na Geórgia! Aqueles tempos eram magníficos!", diz ela. Neste momento, ela complementa: "Os preços eram constantemente reduzidos! Se Stálin não tivesse morrido, ele teria feito sabão, eletricidade e água de graça". Pronto, esta é a lógica do socialismo. Desde Lenin, seja Trotsky ou seja Stálin, os comunistas enfatizam a tarefa primordial de aumentar a produtividade do trabalho. Muitos socialistas simplesmente ignoram isso, talvez por serem jovens idealistas inspirados por sentimentos de justiça. O principal objetivo do socialismo é aumentar a produtividade do trabalho, e era esse o fim perseguido na URSS de Stálin, reduzir os custos através do aumento da produtividade do trabalho. Essa é basicamente a principal diferença do socialismo "antes e depois" de Stálin, tanto na URSS como no resto do mundo. Na década de '60, o principal critério de avaliação da economia soviética deixa de ser a produtividade do trabalho e se torna a taxa de lucro de unidade produtiva. As taxas mais elevadas da produtividade do trabalho foram alcançadas nos anos '50 e depois caíram e estagnaram nas décadas posteriores.

A referência que ela faz a gratuidade de certos produtos, como a água e a eletricidade, também é notável. Realmente, no fim de sua vida Stálin desejava dar um passo a frente na direção do comunismo. Por princípio, é a produtividade do trabalho que permite a construção do comunismo, a distribuição comunista segundo a necessidade, quer dizer, a expansão do acesso aos produtos e até sua distribuição gratuita. Stálin na altura da publicação de seu "Problemas Econômicos do Socialismo na URSS" considerava a possibilidade de se dar um passo a mais de distância em relação a produção mercantil e na direção do comunismo. Segundo ele, a superação da produção mercantil é uma das tarefas do socialismo. Reconhece que isso não depende da vontade subjetiva de um líder, de um partido ou mesmo de todo um povo, mas que depende de leis econômicas objetivas. No entanto, enfatiza que é tarefa do Partido Comunista conduzir já na etapa socialista a transição para formas comunistas não-mercantis.

 I. V. Milianov, biógrafo de Stálin, fala um pouco sobre isso:

«Mikoian, segundo o próprio afirmou, mal se familiarizou com a brochura de
Stáline, adoptou de imediato uma posição crítica em relação a uma série de teses.
“Quando acabei de a ler, fiquei surpreendido: afirmava-se que a etapa da circulação
mercantil na economia se tinha esgotado, que era preciso passar para a troca de
produtos entre a cidade e o campo. Isto era um extraordinário desvio esquerdista.
Expliquei-lhe que, pelos vistos, Stáline planejava realizar a construção do comunismo
no nosso país ainda durante a sua vida, o que, evidentemente, era uma coisa irreal”
.
Segundo as palavras de Mikoian, “passado pouco tempo da discussão na datcha,
caminhava ao lado de Stáline num corredor do Kremlin quando este me disse com
um sorriso irónico malicioso: ‘Estiveste estupendamente calado, não revelaste
interesse pelo livro. É claro que te aferras à circulação de mercadorias, ao
comércio’
. Respondi a Stáline: ‘Tu próprio nos ensinaste que não podemos
apressar-nos e saltar de uma etapa para a outra, e que a circulação mercantil e o
comércio permanecerão ainda durante muito tempo como meio de troca na
sociedade socialista. Efectivamente duvido de que tenha chegado o momento da
transição para a troca de produtos’
. Ele retorquiu: ‘Ah é assim! Estás atrasado.
Pois o momento é chegado precisamente agora!’
Na sua voz havia uma entoação
maliciosa. Ele sabia que nestas questões eu era mais entendido do que qualquer
outro, e não lhe agradava que não o apoiasse.
(apud V.D. Pikhorovitch, A alternativa rejeitada  à reforma de mercado de 1965 Por ocasião do 80.º aniversário do nascimento de V.M. Gluchkov , pg. 8, acessado as  14:00 22/08/2013 em http://www.hist-socialismo.com/docs/Gluchkov.pdf)

Alguns anos após a morte de Stálin, o complexo unificado que caracterizava a economia passa por um processo de desintegração e fragmentação. A unidade ganha um aspecto mais formal, com o Estado guiando a economia, distribuindo investimentos e controlando o crédito, enquanto na prática há uma autonomia financeira por parte das empresas. O sistema soviético se torna uma versão menos radical do sistema iugoslavo. A redução do custo da produção (i.e. aumento da produtividade do trabalho) deixa de ser o principal objetivo das empresas e é substituído pela busca pelo lucro. Antes considerava-se apenas a rentabilidade da economia nacional (que era como uma única empresa, um complexo unificado), agora cada empresa deve se preocupar com sua própria taxa de lucro. Naturalmente cresceram as desigualdades - cresceu a desproporção setorial, operários de uma mesma função ganhavam salários diferentes por estarem em setores distintos, os empregados dos setores mais lucrativos tiveram um aumento salarial muito grande e incapaz de ser atendido pela economia soviética o que estimulou o mercado negro, etc. Se antes a intenção era reduzir custos, agora eles aumentavam com a busca pelo lucro - aumentavam nas relações de uma empresa com outra, afetando a economia nacional, e em relação ao consumidor, mais uma vez fornecendo um estímulo para o mercado negro (quanto ao mercado negro ainda há um terceiro fato relacionado as reformas, que são  os excessos, as "sobras" de capital proveniente do lucro, permitindo re-investimentos).

Explica Prof. Natália Olegova Arkhanguelskaia:

Mas foi o anseio de se obter lucros em cada empresa, em vez da situação anterior em que se considerava apenas a rentabilidade da economia nacional no seu conjunto, que exacerbou, em muito maior grau, a oposição entre a sociedade e os colectivos laborais. Em resultado produziu-se a separação económica dos colectivos laborais, o que conduziu à formação de relações de produção fundamentalmente  diferentes das anteriores. Se antes os interesses do colectivo e da sociedade  coincidiam no essencial, agora estavam em contradição entre si.
As mudanças iniciadas neste período foram consolidadas com a reforma de 1965.  Esta reforma levou à desintegração e fragmentação do complexo económico unificado, pretendendo-se garantir não só a rentabilidade da economia nacional no seu conjunto, mas também que cada empresa separadamente obtivesse lucros. Em consequência, também a grande comunidade de trabalhadores deste complexo  dividiu-se em colectivos separados.(...) Antes de mais, a sociedade e os colectivos foram colocados em oposição entre si  com a introdução do pagamento pelo capital. O pagamento pelo capital fixo e
circulante passou a ser incluído no plano de lucros das empresas. A introdução deste pagamento marcou a mudança de relações entre os colectivos laborais e o Estado. No período anterior partia-se do pressuposto de que os colectivos das  empresas faziam parte do povo, que era o detentor dos meios de produção,  podendo utilizá-los sem qualquer tipo de pagamento. Agora resultava que os colectivos laborais tinham de pagar pelo capital utilizado e, por conseguinte,  passavam a ser considerados não como parte dos proprietários dos meios de  produção, mas como uma espécie de arrendatários. Assiste-se assim a uma peculiar  «espoliação» da propriedade do produtor e a uma oposição do último em relação ao Estado. Os colectivos laborais e a sociedade estão em oposição entre si enquanto proprietário dos meios de produção e sujeitos que os utilizam. Os colectivos  laborais não são proprietários das empresas e não podem dispor delas plenamente, por conseguinte, se por enquanto ainda não existem massas de proprietários  isolados, simultaneamente os colectivos já não fazem parte do proprietário plural.  Esta situação dificilmente poderia ser estável, teria de conduzir a ulteriores  mudanças, o que veio a ocorrer no limiar dos anos 90.   

(...) Antes da reforma, um dos  mais importantes indicadores do funcionamento das empresas era o preço de custo  da produção e a sua redução, por outras palavras, eram considerados os gastos de  trabalho vivo e social [trabalho passado]. As empresas eram incentivadas a reduzir  os gastos do trabalho, o que se traduzia na redução do preço de custo em relação  aos objectivos do plano, sendo que uma parte significativa dos meios economizados  ficava no colectivo laboral. Deste modo, não só o colectivo estava interessado na redução do preço de custo, mas também a sociedade, uma vez que podia receber  maior variedade de produtos com iguais gastos de trabalho. Isto criou uma  comunhão de interesses entre a sociedade e os colectivos de trabalho, o que  contribuiu em muito para o próspero desenvolvimento económico do país e para a  formação de uma psicologia colectivista.

Essas razões estão entre as que levam alguns a afirmar, num pensamento estritamente marxista, que a URSS foi o país que mais avançou na construção do socialismo, que "realizou a primeira etapa". Não só por ter desenvolvido mais suas forças produtivas, mas por ter avançado mais em suas relações de produção. No Leste Europeu o nível de socialização não chegava nem mesmo nos níveis da URSS pós-Stálin, além de esboçarem suas próprias noções de socialismo de mercado. Em Cuba na década de '70 adota-se o modelo soviético com alguns elementos cubanos (nota: Che havia criticado o sistema econômico soviético e defendeu a "via stalinista" para Cuba, o Sistema Orçamentário de Financiamento). Na Iugoslávia as unidades produtivas eram mais autônomas do que na URSS. A China, ainda no período Mao, flutuava entre diversas formas propriedade com um considerável nível de descentralização (você tinha fábricas estatais "à soviética", fábricas privadas e fábricas comunais) e agora tem um sistema de mercado com controle macroeconômico e "superioridade do setor socialista"(o setor estatal é o maior). A Coreia é um caso mais sui generis, mas ainda sim com maior autonomia regional e fábricas independentes.

A URSS era um país socialista, quer dizer, tinha um sistema econômico socialista, assentado na produção socializada. É esse o fator que a torna socialista, o que não depende julgamentos morais. Vejo muitas concepções demasiado emotivas de "socialismo", desligadas do fator econômico e distintas do marxismo (apesar de muitas vezes a Marx prestarem homenagem). Jovens guiados por ideais de justiça e uma sociedade perfeita denunciam a URSS sem levar em conta sua base econômica, submetendo-a ao julgamento de suas normais ideias e de seu corações sensíveis.  Uma coisa são as relações de produção da URSS e outra coisa são "erros e acertos" de Stálin - até Trotsky era consciente disso e, pelo menos no campo das palavras, defendia a base econômica da URSS. É muita gente falando da URSS sem saber, sem pensar nesses termos. É no mínimo irônico que muitos dos que se consideram atualmente "campeões do anti-capitalismo" ataquem ferozmente uma das principais alternativas ao capitalismo, na maioria das vezes devido a pressão da propaganda anti-comunista ocidental e clichês que eles aceitam como verdades para depois dizer que "isso não é socialismo" - fazem o jogo daquele que teoricamente seria o inimigo. Realmente, olhando por este lado, a propaganda aliada ao acontecimento histórico da desintegração da URSS tem efeitos devastadores na esquerda, o que só piora com uma tradicional falta de estudos, senso comum, presunção e pedantismo. Existe uma certa dificuldade em se utilizar o termo "socialismo" objetivamente, como uma característica de um fenômeno e não um elogio onde cada auto-proclamado socialista o aplica naquilo que ele considera ideal. É por isso que re-afirmo o que disse no começo: essa senhora do vídeo entende mais de "socialismo" do que muitos "socialistas".

"Uma forma de pensar "puramente" normativa, idealista e ultimatista quer construir o mundo à sua imagem e desfazer-se simplesmente dos fenômenos de que não gosta. Só os sectários, quer dizer, a gente que é revolucionária só na sua própria imaginação, se deixam guiar por puras normas ideais. Dizem: não gostamos destes sindicatos, não os defendemos." (Trotsky, "Um Estado Não Operário e Não Burguês", 25 de Novembro de 1937)

Fonte

"Sobre algumas causas da restauração do capitalismo na URSS", N.O. Arkhanguelskaia http://www.hist-socialismo.com/docs/CausasrestauracaocapitalismoURSS.pdf

domingo, 18 de agosto de 2013

O que está acontecendo no Egito?

Sisi, o comandante-em-chefe responsável pelo golpe e arauto da repressão anti-Morsi



Tenho acompanhado os acontecimentos no Egito através das agências de noticias RT (Russia Today), Al Jazeera e BBC, assim como as diversas reações das pessoas. Muitos estão chocados com o número de mortos massacrados pelo exército e constroem com base uma narrativa que mistifica os acontecimentos.

Antes de tudo é necessário pensar mais além de "povo nas ruas", a noção genérica de "povo" como uma entidade abstrata, ontologicamente boa, etc. De maneira grosseira, depois de uma série de manifestações derrubaram Hosni Mubarak (com apoio do exército), os islamistas da Irmandade Muçulmana, que participaram com força na derrubada de Mubarak, se saíram muito bem nas eleições (ganharam as quatro últimas) e elegeram um presidente, Mohamed Morsi. Apesar da eleição, milhares de manifestantes foram as ruas do Egito contra o seu governo, pedindo sua derrubada. Os militares atenderam esse pedido depois de um ultimato, retirando Morsi com um golpe militar. São diversas as razões da derrubada de Morsi, entre as possíveis e declaradas. Morsi teria se "desviado do curso da revolução"; Morsi, que recebeu muitos votos não-islamistas, era só um representante do Birô de Liderança da Irmandade; o Egito passou nesse curto período por uma degradação econômica, com um crescimento na inflação e no desemprego; não ocorreram reformas nos serviços de segurança; aumento das tensões religiosas e da violência por parte dos militantes da Irmandade; o presidente irritou o exército ao se posicionar em questões internacionais sem consultá-lo e teria colocado em risco a segurança nacional ao se guiar pelos objetivos internacionais da Irmandade Muçulmana (que é uma organização internacional); acusações de incompetência; Morsi não conseguiu estabelecer um equilíbrio com a oposição (sim, óbvio); e por último, de grande importância, de que Morsi estaria manchando a imagem do Egito no exterior ao torná-lo um "porto de terroristas" (questão preocupante para norte-americanos e israelenses, principalmente). De qualquer forma, fato é que os militares deram um golpe com o respaldo político da oposição e das manifestações populares, sob o auspício do Comandante-em-chefe das Forças Armadas, Abdeh Fatah el-Sisi. Depois disso, outras massas, as massas que apoiavam Morsi e as mobilizadas pela Irmandade Muçulmana foram vão as ruas enfrentar o golpe militar, sofrendo a repressão etc etc.

Sobre o golpe militar, é preciso ter em conta:
- O exército egípcio é muito ligado aos Estados Unidos da América devido a programas de cooperação militar que incluem largas somas de dinheiro. O exército recebe uma ajuda anual de 1,3 bilhões do pentágono.
- A intervenção militar serve para enquadrar a agitação popular no Egito como um todo, assumir o controle do processo, e não somente para deter a poderosa Irmandade Muçulmana.

O exército egípcio vem reprimindo duramente as manifestações pro-Morsi lideradas pela Irmandade, atirando contra manifestantes e fazendo massacres individuais. Na terça-feira foram mortos pelo menos 525 (43 deles policiais) e mais de 3.000 feridos nos conflitos. Nos dias seguintes houve uma escalada de violência devido o recrudescimento da repressão e a revolta popular frente o massacre. Na sexta feira, segundo o governo, morreram 173 pessoas. Segundo o Ministério do Interior foram presos 1,004 "elementos" da Irmandade Muçulmana. Falam-se de número na altura dos 4,500 mortos (endossados pela Irmandade Muçulmana). O uso de força letal foi autorizado depois que passaram a incendiar prédios governamentais e a justificativa oficial é a de enfrentar o terrorismo. Pelo menos 250 membros da Irmandade Muçulmana estão sendo processados com acusações como assassinato e terrorismo. Pela manhã um comentarista egípcio na RT lembrou dos ataques da Irmandade Muçulmana nos últimos meses (que também "atiram contra civis") assim como reportam-se tiroteios entre forças do governo e islamistas. Além das imagens de islamistas reprimidos, mostraram cristãos feridos que teriam sido agredidos por esses mesmos islamistas. De fato, igrejas vem sendo atacadas, saqueadas e queimadas por radicais (52 igrejas queimadas até então). A Irmandade Muçulmana, por sua vez, se defende dizendo que ela organiza protestos pacíficos mas que no entanto é difícil controlar manifestações de fúria espontânea frente a repressão. O grupo também nega as acusações de estar por trás do uso de força armada contra o governo (ataques a postos policiais) e das queimas de igrejas, atribuindo estas ações ao grupo radical Jemaah Islamiyah (ou Al-Gama'a al-Islamiyya , "Congregação Islâmica", não confundir com o grupo indonésio de mesmo nome).

A posição do exército é a linha dura. No que concerne a Irmandade, querem retornar a Mubarak: proibição, clandestinidade. Sisi nomeu 25 governadores de província para lidar com o problema, sendo 19 deles generais; foi declarada lei marcial. Querem suprimir a Irmandade, resolver a base da porrada. O problema é que a sociedade egípcia está muito dividida e os islamistas contam com alta popularidade. A posição inflexível do exército (que não cogita uma negociação), esperando que a Irmandade Muçulmana simplesmente se retire, só vai gerar mais banho de sangue. Alguns liberais, nasseristas e progressistas geralmente dominados pelo medo da Irmandade, apoiam o golpe (inclusive manifestantes da Irmandade são hostilizados por contra-manifestantes e bairros que "apoiam" o regime se mantém calmos). Ebtesam Madbouly aponta que a divisão no Egito não é tão grande, sustentando que os apoiadores de Morsi não são uma maioria. A ativista lembra que muitas pessoas não participaram das eleições e que nem todo eleitor de Morsi é necessariamente "pro-Morsi", "morsirista", militante ou simpatizante da Irmandade Muçulmana. Mesmo assim, a influência dos islamistas é inegável e sem precedentes históricos. Se a estratégia governamental vem sendo a repressão sem limites, a Irmandade Muçulmana se esforça para desestabilizar e controlar Cairo, tomando as ruas, regulando o trânsito e se dirigindo contra prédios governamentais.

Agora, a grande dúvida que paira em nossas cabeças é o porque da "comunidade internacional" não condena Sisi pela morte de civis da mesma maneira que condena Assad pela morte de rebeldes armados. Nada de armas para a oposição, ameaças de intervenção, demonização de Sisi, "ataques cirúrgicos" com drones....? Neste ponto reside a chave para compreender as origens do golpe, basta olharmos para as forças internacionais que estão por trás do mesmo. Quem ganha com o golpe é a Arábia Saudita (que vem apoiando o processo, assim como outras monarquias do golfo, substituindo o Catar que apoiava Morsi), , Israel (que conseguiu um governo mais disposto a colaborar e desligado de alguns de seus inimigos históricos, isto é, Irmandade Muçulmana/Hamas) e obviamente os Estados Unidos. John Kerry, o secretário de estado norte-americano, condenou a violência. Mas estes são só lamentos, já que Obama estabeleceu que não vai retirar sua ajuda anual de 1,3 bilhões ao exército - o Pentágono e a OTAN se limitam a pedir "moderação" na repressão, porque o que eles querem já está garantido: um governo obediente e uma ponta de lança no Oriente-Médio. Tudo isso nos lembra de como a realidade é contraditória e os Estados Unidos, de maneira inteligente, manipulam os desfechos a seu favor. Até pouco tempos muitos reclamavam dos olhos fechados de Washington para a violência da Irmandade Muçulmana, e Morsi enviava combatente para o Egito para juntar as forças anti-Assad, a mesmas apoiadas pelos Estados Unidos (e que são islamistas radicais).




Por fim, digo que temos que eliminar a tendência de procurar "as vítimas" no processo. É preciso lembrar do caráter conflitivo da política, em detrimento da visão liberal que implica na dissolução dos conflitos fundamentais em prol da competição harmoniosa - mesmo quando essa visão é mais ou menos realizada depende da correlação de forças dentro daquela sociedade. Devemos pensar antes de tudo em duas forças em conflito, e guerra é guerra. Não estou justificando as repressões, fogo contra manifestantes, mas trazendo tona a natureza do conflito para aqueles que querem olhar para a situação egípcia. Acontece que milhões elegeram Morsi, milhões protestaram contra ele e agora muitos pedem sua volta, assim como muitos apoiam o novo regime. Os que quiserem se guiar pelo discurso democrático frágil de "apoiar a maioria" só vão abraçar a confusão, até porque se trata de um confronto entre forças e posições.


ANEXO 1 (domingo 18 de Agosto):

Foram mortos pelo menos 32 prisioneiros no que seria um tentativa de fuga tendo um guarda como refém. Foram asfixiados dentro de um ônibus com gás lacrimogênio.

Sisi, emocionado, declarou em conferência com chefes militares que não haverá mais "auto-controle" no trato com "terroristas que querem destruir o Egito".  Na televisão estatal estava escrito "Egypt fights terrorism".

Manifestante romperam barreira de segurança do entorno do Supremo Tribunal egípcio.

ANEXO 2 (terça-feira 20 de Agosto)

No dia 19 foram mortos 25 policiais numa emboscada provavelmente conduzida por militantes islamistas.

Foi preso um dos líderes da Irmandade Muçulmana no Egito, Mohamed Badie.

Informe-se:

http://rt.com/op-edge/egypt-violance-morsi-sisi-497/

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2013/08/18/State-media-Muslim-Brotherhood-supporters-face-murder-terrorism-probe-.html

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

País ocupado

O texto seguir trata da submissão do Brasil ao capital estrangeiro. Qualquer posicionamento político que não leve em conta esses fatos é mistificação. Na realidade concreta, não existe uma fronteira murada dividindo política e de economia. O Brasil é, como diz o título, um país ocupado, cujos recursos são controlados por interesses internacionais e é necessários nos valermos desse conhecimento na hora de observar as diversas movimentações políticas internas. O "livre mercado" passa por cima da soberania nacional e os radicais se iludem ao pregar o mercado sem limites ao mesmo tempo que ignoram a ação agressiva dos monopólios internacionais. É notável que o petismo e grande parte da esquerda simplesmente não lidam com essas questões.

Por Adriano Benayon (2009)

O Financial Times, em 19.10.2009, disse que o Brasil é a potência do Século XXI a ser observada. Dois dias depois, comentando o IOF de 2% sobre o ingresso de capitais estrangeiros, o mesmo jornal sustenta que isso decorre do “êxito” do Brasil. O aspecto mais enganoso dessas avaliações é a suposição de o capital estrangeiro ser benéfico para o País.

A imprensa ligada ao establishment oligárquico não pára de exaltar o desempenho do Brasil. Não é novidade elogiarem, sempre que bancos e transnacionais recebam todas as facilidades e subsídios para se apropriar das riquezas do País. Ademais, estão de olho no petróleo do pré-sal.

A indústria brasileira começou a ser liquidada, em 1954, por meio do golpe udenista-militar que, pela segunda e definitiva vez, afastou o presidente Getúlio Vargas. Dias depois do golpe foram criadas vantagens absurdas em favor do capital estrangeiro. JK não só as manteve como as ampliou. Eleito, antes da posse, foi ao exterior para atrair ‘investimentos’ estrangeiros.

De 1964 a 1966, medidas brutais foram adotadas para acelerar a liquidação de indústrias de capital nacional. No início dos anos 70, Delfim Neto concedeu mais subsídios desmedidos às transnacionais, especialmente para a exportação.

Os resultados, em menos de 20 anos (1954-1974), foram documentados em relatórios como o de Newfarmer e Mueller para a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Senado dos EUA, 1975: intensa concentração da oferta nos setores industriais nas mãos de três a quatro empresas; predomínio das multinacionais.

Sem quase nada investir as transnacionais ocuparam os espaços durante os falsos milagres econômicos (1956-1960 e 1969-1974). Ficou tudo por conta do Estado. A prodigalidade deste levou o País a pesado endividamento. Os programas hidrelétrico e siderúrgico e obras da infra-estrutura foram feitos sob dependência tecnológica e financeira, com importação de máquinas e equipamentos sobre-avaliados, onerados por “serviços” e tecnologia não-absorvida, em pacotes fechados.

Aos “milagres” seguiam-se ressacas, agravadas por políticas fiscal, monetária e de crédito restritivas, a pretexto de combater a inflação, às expensas dos assalariados e das empresas de capital nacional. Isso as inviabilizou, fazendo-as fechar ou ser compradas pelas estrangeiras, a preços risíveis.

Ao final do segundo “milagre” (1975) o Brasil caminhava para o desenlace, em 1982, da dívida externa, que crescia impulsionada pelos mecanismos da agiotagem, mesmo com a queda nos investimentos produtivos.

Veio o colapso das contas externas, as moratórias e os acordos extorsivos ditados pelo cartel dos bancos “credores” com total conivência do “governo” do Brasil, que se omitiu diante da proposta argentina de criar um clube de devedores com o Brasil e o México.

Isso propiciou as intervenções do FMI para estancar os investimentos públicos, que haviam sustentado o crescimento. Foi arrasado o que restava da capacidade de sobreviver das médias e grandes empresas de capital nacional. O resultado, mais tarde, foi que a participação das transnacionais sobre o faturamento total de dezoito cadeias industriais atingisse 36% em 1996 e saltasse para 52% em 2000.

Após dominar a indústria, as transnacionais apropriaram-se das estatais com as privatizações. A União Federal praticamente nada recebeu por elas e gastou centenas de bilhões de reais para entregá-las. Cartéis estrangeiros apossaram-se dos serviços públicos, como energia [não é como se já não estivessem presentes], água, saneamento, telecomunicações, cujas tarifas se elevaram muito acima da inflação.

Houve, ainda, as escandalosas doações de bancos, inclusive o maior banco estadual do Mundo, o BANESPA, ao Santander, espanhol, teleguiado por Londres. Outro expoente do imperialismo britânico, o HSBC, ficou com o Bamerindus. O holandês AMRO, com o Banco Real. Hoje, dos sete maiores bancos privados cinco são estrangeiros, e o Banco Central - na prática, acima do governo – proporcionou-lhes os juros mais altos do mundo e lucros jamais vistos.

As estatísticas subestimam o grau de controle da economia brasileira pelas transnacionais. Consideram como tais só as empresas com maioria oficial de capital estrangeiro, tomando por nacionais as participações dos laranjas ou testas-de-ferro, além de ignorar a propriedade das ações ao portador.

Exemplos são as portentosas PETROBRÁS e Vale do Rio Doce. Na primeira, o controle não é de estrangeiros, mas a participação destes no capital tornou-se elevadíssima. Mais ações são negociadas em Nova York que na BOVESPA, devido à deletéria lei 9.478, de 1997, uma das desastrosas medidas ditadas do exterior durante os oito anos de FHC.

Na VALE tudo é obscuro. Os fundos de pensão são os maiores acionistas. O controle oficial seria do BRADESCO, em parte nacional, mas a participação estrangeira tem conotações estratégicas que transcendem os meros percentuais da contabilidade acionária.

Em grande número de empresas, mesmo abstraindo os laranjas e as ações ao portador, participações abaixo de 50%, e bem menos, são suficientes para que a transnacional tenha o poder decisório. A propriedade da tecnologia é um dos fatores para isso.

A partir da fatídica presidência de FHC, o BNDES deixou de financiar estatais e passou a beneficiar empresas estrangeiras, inclusive nas negociatas das privatizações. Atualmente elas são as maiores tomadoras do crédito desse estupendo banco.

As transnacionais vêm, nos últimos quinze anos, ocupando de maneira intensa os poucos setores em que não tinham presença dominante, como informática, agronegócio, comércio varejista, turismo e hotelaria.

É com base em estatísticas subestimadoras do controle estrangeiro que, por exemplo, Reinaldo Gonçalves, da UFRJ, disse, em entrevista de 23.03.2009, que o capital estrangeiro controla 25% do PIB brasileiro e mais de 40% da produção industrial e das exportações.

Aduz que essa proporção é 60% na indústria de bens de capital e na automotora, uma subestimação grosseira, pois praticamente 100% desta pertencem às transnacionais, tendo a política econômica e decisões do governo feito fechar as fábricas nacionais. Nas autopeças, o percentual das brasileiras caiu para menos de 20%. Antes de 1990, era superior a 50%.

Gonçalves reconhece que o Brasil ficou com reduzida capacidade de resistir à crise global, afirmando: “A atuação das empresas depende das matrizes, que se aproveitam do resultado das melhores filiais. As cadeiras produtivas das montadoras dependem do mercado internacional em 19,5%. Como é uma cadeia produtiva muito significativa, pega desde a pecuária na produção de couro, para os bancos dos automóveis, até química, plástico, borracha, metalurgia, siderurgia e eletroeletrônica.”

“Essa cadeia produtiva tem como eixo estruturante as montadoras, e quando há problema lá fora, há um rearranjo nos fluxos financeiros via remessa de lucros e dividendos, repatriação de capital, pagamento de patentes, empréstimos intercompanhias, uso da tesouraria para cobrir buracos externos ...”

Carlos Lopes, do Hora do Povo, observa:

“As telecomunicações, a distribuição de energia elétrica, a distribuição de gás, as Tvs a cabo (através de ‘laranjas’) são casos notórios. Mas não são apenas esses setores ..." “O leitor já ouviu falar nas empresas norte-americanas General Growth Properties (GGP), CB Richard Ellis, no Becker Group ou na canadense Ivanhoe Cambridge? São empresas que possuem provavelmente a maior parte dos shopping-centers instalados no nosso país.”

“Nem vamos falar dos supermercados - onde o americano Wall-Mart, o francês Carrefour e o meio-francês Pão de Açúcar monopolizam o comércio...”

“Recentemente as 145 lojas da Rede Quero Quero, que vende material para construção civil e mais quase tudo que se possa imaginar no Sul do país, passaram para a propriedade do fundo norte-americano Advent [desde  1997, tem 12 investimentos no Brasil, são donos da rede de restaurantes de estrada Frango Assado e da rede de restaurantes Viena, assim como da CETIP, do mercado financeiro, da Brasif, que atua no turismo, e da Kroton, que é uma das maiores companhias privadas do ramo da educação do Brasil]  . O grupo francês Louis Dreyfus é um dos maiores produtores de açúcar e álcool - depois de adquirir as usinas do grupo pernambucano Tavares de Melo.”

Ao contrário do que imagina Lopes, os investimentos estrangeiros de antes não eram melhores que esses, apesar de serem originais e produtivos. Por isso mesmo não devem ficar sob controle tecnológico e financeiro estrangeiro. Além disso, o Brasil pagou fortunas por equipamento sucatado pelas matrizes das transnacionais, que o registravam a valores altíssimos como investimento direto estrangeiro, tomavam conta do mercado e passavam a importar insumos a preços superfaturados e a arranjar n formas de transferir dinheiro para o exterior a título de serviços, superfaturados e até fictícios.

No próximo artigo quantificarei as remessas de lucros das transnacionais, tanto as oficiais - que têm crescido enormemente - como as mascaradas, realizadas a quinze títulos diferentes em contas do comércio exterior, de rendas e de serviços, que enumero no capítulo 7, “Empresas transnacionais e transferência de recursos” do livro “Globalização versus Desenvolvimento”.

Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. abenayon@brturbo.com.br