sábado, 24 de agosto de 2013

Sobre o "ataque de gás" em Damasco, Síria - quem ganha?




Quando criei esse blog, o fiz na intenção de sempre perguntar: cui bono? Quem ganha? É o que temos que nos perguntar em política. É um princípio pertinente com o recente "ataque de gás" na periferia de Damasco, que colocou o Oriente Médio a beira de uma intervenção militar direta. Algumas pessoas ao invés de pensarem com calma já se entregaram a certezas histéricas quanto a culpa de Assad nesse caso.

Por exemplo, o partido conhecido como PSTU já dá os seus gritos emotivos contra a "ditadura" e em favor dos rebeldes apoiados pela OTAN, imediatamente após ao ataque e de maneira extremamente irrefletida. Condenam Assad com a mesma velocidade que apoiaram o golpe militar no Egito que já era apontado por muitos como uma manobra americano-sionista muito antes dos massacres. Fortes emoções atrapalham a razão dos militantes, o que os coloca constantemente numa condição de caixas de ressonância do Departamento de Estado norte-americano.

Para construir uma reflexão sobre os fatos e mostrar que o ataque não partiu do governo sírio, prepare alguns pontos que se dividem entre contra-evidências e fatos que considero relevantes.

1 - Assad está ganhando a guerra. É uma atitude desesperada e quem está desesperado não é o governo.

2 - Se trata de uma área de apoiadores, Damasco é zona lealista e sob controle do governo, o contrário da desinformação que vem sendo espalhada por ignorantes de que o ataque foi contra rebeldes. Não se trata propriamente do front. O "normal" seria utiliza-lo contra no front, contra tropas e cidades inimigas. É curioso que o "governo assassino" só demonstre disposição em utilizar armas químicas nesse momento de maior estabilidade.

3 - Assad tem agido racionalmente em relação aos próprios interesses e se preocupa com "relações públicas". É no mínimo estranho que o governo, sem nenhuma oposição de dentro do exército (afinal um homem pode ser louco mas os outros certamente sabem que tal ataque seria inútil), tenha escolhido usar armas químicas em Damasco (o que nessas condições geraria uma insurreição) e exatamente um dia depois da chegada de uma comissão internacional para avaliar o uso de armas químicas? A Síria pode até ter o maior depósito de gás sarin do mundo, mas pelo jeito não vem empregando o mesmo com frequência.

4 - Esses tipo de ações condizem com o histórico de ações do imperialismo norte-americano, cujo objetivo, obviamente, é desestabilizar o governo sírio. Obviamente isso não prova, no entanto, é fato de que o acontecimento cria jus bellum para uma intervenção na Síria e os Estados Unidos já se posicionam para uma ação militar contra síria, conforme já foi declarado pelo secretário da Defesa Chuck Hagel. Para os militantes do PSTU, não existe correlação lógica entre as canhoneiras americanas e o "ataque químico" - provavelmente inventarão algum absurdo teórico pseudo-marxista do tipo "o imperialismo quer sufocar a revolução neste momento em que a ditadura está desmoronando"(com uma lógica parecida eles falam de contatos passados de Damasco com Washington e de multinacionais na Síria quando confrontados pelo apoio da OTAN aos rebeldes sírios).

5 - A Rússia apontou o ataque como uma montagem dos rebeldes (o que é muito sério, se trata de um Estado com forte presença de serviços de inteligência em Damasco). O Irã (também muito presente) disse que entregará provas de que os rebeldes usaram armas químicas. Estas declarações não suscitam dúvidas nos militantes do PSTU, afinal a Rússia e o Irão são "governos reacionários que apoiam a ditadura" - é curioso que os militantes não tenham tanto zelo assim em relação aos Estados Unidos, a OTAN, os rebeldes, etc.. Quanto ao posicionamento do governo da Síria, estes a priori disse que iria investigar e que tinha os rebeldes como suspeitos.

6 - É questão de bom senso. O governo de Damasco não tem nada a ganhar com esse tipo de ação, até porque ele sabe que de qualquer maneira seria considerado culpado e comprometeria sua vitória com uma possível intervenção internacional.

Aparentemente, nada disso levanta uma dúvida sequer na cabeça do PSTU, afinal todos sabem que Assad é um "ditador louco assassino que massacra o próprio povo". O partido além de ser vítima do viés de confirmação do senso comum é acometido por uma cegueira política incapaz ver os movimentos estratégicos e maquinações do imperialismo - aniquilaram o bom senso.

NOTA: O "ditador", que tinha pleno direito soberano de negar, liberou que os agentes internacionais investiguem.

Uma notícia antiga (de maio) sobre caso parecido envolvendo o gás sarin: http://www.washingtontimes.com/news/2013/may/6/syrian-rebels-used-sarin-nerve-gas-not-assads-regi/

Foram encontradas armas químicas que estariam em posse do rebeldes

http://portuguese.ruvr.ru/news/2013_08_24/autoridades-sirias-encontraram-armas-quimicas-em-tunel-de-rebeldes-8198/

http://rt.com/news/rebel-tunnel-damascus-chemical-940/

https://www.youtube.com/watch?v=rUW_oFufU-Y

http://rt.com/news/syria-green-light-chemical-inspection-967/

http://rt.com/news/iran-warns-us-red-line-961/

Nenhum comentário:

Postar um comentário